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Filme: "Blue Black Permanent" (1992), Margaret Tait

Filme: “Blue Black Permanent” (1992), Margaret Tait

Neste filme de Margaret Tait, uma fotógrafa busca entender o legado de sua mãe poeta. É uma jornada poética sobre memória, arte e os laços que unem três gerações de mulheres na paisagem austera da Escócia.


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A fotógrafa Barbara busca decifrar o legado de sua mãe, Greta, uma poeta cuja vida foi interrompida de forma abrupta nas águas frias que cercam as ilhas Orkney. Este não é um percurso de investigação criminal, mas uma imersão na memória, uma tentativa de montar uma imagem coesa a partir de fragmentos poéticos, fotografias antigas e as histórias sussurradas por sua avó. O filme de Margaret Tait, o seu único longa metragem, navega por três gerações de mulheres de uma mesma família, movendo-se com fluidez entre o presente de Barbara em Edimburgo e o passado de sua mãe e avó na paisagem ventosa e austera da Escócia insular. A narrativa se desdobra não como uma linha reta, mas como as ondas do mar, avançando e recuando sobre a mesma costa, revelando e ocultando detalhes a cada movimento.

O que distingue Blue Black Permanent é a sua recusa em tratar a memória como um arquivo estático. Para Tait, uma cineasta com alma de poeta, o passado é uma força ativa, uma presença texturizada. A sua câmara não se limita a observar os personagens; ela capta a umidade do ar, o som do vento batendo contra as pedras, a luz particular que define a topografia emocional tanto de Orkney quanto de Edimburgo. O cenário funciona menos como um pano de fundo e mais como um arquivo sensorial, onde os sentimentos e as memórias estão impregnados nas paisagens. A busca de Barbara por sua mãe torna-se, então, uma exploração tátil, onde entender Greta significa sentir o mesmo frio, ver a mesma luz e decifrar os ritmos que informaram a sua poesia.

O tempo no filme não avança; ele se acumula, como camadas de sedimento. Esta abordagem remete a uma percepção do tempo como duração, onde o passado não é algo a ser revisitado, mas uma corrente que flui continuamente sob a superfície do presente de Barbara. A herança que ela procura não é material, mas uma sensibilidade, uma forma de ver o mundo que conecta a sua fotografia à poesia de sua mãe. O título, Blue Black Permanent, evoca a tinta indelével de uma caneta, a cor profunda do oceano e, por fim, a permanência da arte e do sangue como os verdadeiros elos entre as gerações. O filme explora como a criatividade é passada adiante, não como uma habilidade, mas como uma necessidade, uma maneira de processar o mundo e a própria existência.

Ao final, a obra de Margaret Tait oferece uma experiência cinematográfica singular. É um filme que opera na sua própria frequência, exigindo uma sintonia fina por parte do espectador. A sua estrutura, que pode parecer desconcertante a princípio, revela uma lógica interna profunda, espelhando a forma como a mente humana constrói significado a partir de peças dispersas de experiência. A jornada de Barbara não resulta em uma revelação bombástica sobre a morte de sua mãe, mas em algo muito mais sutil e significativo: um entendimento da continuidade, da forma como as vidas, as paixões e as criações de quem veio antes continuam a moldar quem somos, de maneira tão persistente e indelével quanto a tinta azul escura no papel.


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