Roman Kogler, um jovem de 19 anos aprisionado nas paredes de um centro de detenção juvenil, encara a possibilidade de liberdade condicional com uma apatia que beira o niilismo. Sua existência é uma sucessão de dias vazios, marcados por uma incapacidade quase patológica de se conectar com o mundo ou com as pessoas ao seu redor. A liberdade, para ele, não é um horizonte de esperança, mas outra paisagem estéril a ser atravessada. A condição para sua soltura é um emprego estável, uma tarefa que se mostra complicada pela sua passividade e pelo registro criminal. Após uma série de tentativas frustradas, surge uma oportunidade inusitada e macabra: um trabalho na agência funerária municipal de Viena. É aqui, entre os mortos, que a narrativa de ‘Breathing’ (Atmen), a estreia na direção do ator Karl Markovics, começa a tomar forma, não como uma história de redenção, mas como um estudo clínico sobre o lento e doloroso despertar de uma consciência.
O trabalho de Roman é metódico, físico e desprovido de sentimentalismo. Ele transporta corpos, prepara caixões, lida com a logística da morte com uma eficiência fria que espelha seu estado interior. Markovics filma essas rotinas com enquadramentos estáticos e uma paleta de cores dessaturada, conferindo uma dignidade austera ao processo e, ao mesmo tempo, sublinhando a distância emocional do seu protagonista. O silêncio predomina, quebrado apenas pelos sons funcionais do trabalho e por diálogos curtos e pragmáticos. Nesse ambiente, a morte não é um evento dramático, mas uma constante administrativa, uma burocracia do fim. Para Roman, um jovem que nunca aprendeu a viver, o contato diário com os que já não vivem opera de uma forma inesperada. Ele não se assusta; ao contrário, parece encontrar uma espécie de paz na quietude irrevogável dos corpos que manuseia.
O ponto de inflexão da trama ocorre quando Roman se depara com o corpo de uma mulher que compartilha seu sobrenome. Essa coincidência factual perfura sua armadura de indiferença e acende uma faísca de curiosidade. A possibilidade de que aquela mulher seja a mãe que o abandonou na infância o lança em uma busca por seu próprio passado. A investigação que se segue não é a de um detetive, mas a de alguém que tenta montar o quebra-cabeça da sua própria origem, peça por peça, a partir de fragmentos de memória e arquivos burocráticos. A busca pela mãe se torna um motor para a ação, forçando Roman a interagir, a perguntar, a sentir algo para além do vazio. A performance de Thomas Schubert é central para o filme, construída em pequenos gestos, em um olhar que lentamente adquire profundidade, em uma postura corporal que transita da rigidez defensiva para uma vulnerabilidade hesitante.
A direção de Markovics demonstra uma maturidade e um controle notáveis. Ele evita qualquer artifício melodramático, confiando na força de sua premissa e na expressividade contida de seu elenco. O filme se alinha com uma certa tradição do cinema europeu, particularmente o austríaco, que privilegia a observação rigorosa em detrimento da catarse emocional. A abordagem de ‘Breathing’ pode evocar o conceito de facticidade existencial, a noção de que somos “lançados” em um mundo e em circunstâncias que não escolhemos. Roman foi lançado em uma vida de abandono e delinquência. Seu percurso no filme não é sobre apagar esse passado, mas sobre confrontar essa condição dada e, a partir dela, começar a projetar um futuro, a fazer escolhas autênticas. O ato de aprender a respirar, simbolizado pelas suas aulas de natação, torna-se uma metáfora poderosa para esse processo: um esforço consciente e físico para controlar o próprio corpo e, por extensão, a própria vida.
Ao final, ‘Breathing’ se revela uma obra sobre a assunção de responsabilidade. A responsabilidade não apenas pelo crime que o colocou no reformatório, mas pela sua própria existência. A conexão com os mortos ensina a Roman o peso da vida, e a busca pela mãe o força a encarar as fundações de sua identidade. O filme não oferece conclusões fáceis ou transformações milagrosas. Em vez disso, apresenta o retrato preciso e profundamente humano de um jovem aprendendo a ocupar seu espaço no mundo, um processo tão fundamental, difícil e necessário quanto o simples ato de inspirar e expirar. É um cinema que confia na inteligência e na sensibilidade do espectador para encontrar ressonância na sua quietude e na sua honestidade brutal.




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