Joaquim Pinto, cineasta português, vira a câmara para si mesmo para documentar um ano crucial da sua vida. Há mais de duas décadas a viver com VIH e Hepatite C, ele embarca num ensaio clínico com fármacos ainda não aprovados, um protocolo médico de alto risco que promete tanto a possibilidade de uma nova vida como a ameaça de efeitos secundários devastadores. Acompanhado pelo seu companheiro, Nuno Leonel, e pelos seus cães, Pinto recolhe-se numa quinta, transformando o seu isolamento num ato de observação minuciosa. O filme é, na sua superfície, o diário dessa experiência, um registo da luta do corpo contra a doença e contra os próprios medicamentos desenhados para o salvar.
Contudo, a obra rapidamente se revela como algo muito mais complexo do que um simples registo de paciente. A narrativa não se prende a uma cronologia estrita de procedimentos médicos ou da degradação física. Em vez disso, Pinto tece um ensaio visual sobre o tempo, a memória e a perceção. O quotidiano assume uma dimensão quase sagrada: o cuidado com os animais, a preparação das refeições, os passeios pela natureza, as conversas com Nuno. Estes momentos de aparente banalidade são justapostos à brutalidade dos tratamentos, criando um ritmo que espelha a própria condição do cineasta, onde a vida persiste e floresce nos intervalos da doença. A câmara de Pinto é íntima sem ser invasiva, um olhar que examina o seu próprio corpo e o mundo ao redor com a mesma curiosidade despojada.
A linguagem cinematográfica do filme é de uma honestidade desconcertante. Não há procura por imagens esteticamente perfeitas ou por uma montagem que crie tensão artificial. O que emerge é um fluxo de consciência visual, onde o passado de Pinto como sound designer e cineasta se infiltra no presente. Memórias de trabalhos antigos e reflexões sobre a história do cinema e da arte surgem não como digressões, mas como parte integrante da sua forma de processar a realidade. O filme torna-se, assim, um ato de autorreflexão sobre a própria prática artística como ferramenta de sobrevivência e de entendimento do mundo, onde filmar é sinónimo de estar vivo e de prestar atenção.
Subjacente a todo o filme, há uma silenciosa aceitação de uma certa filosofia prática perante o incontrolável. Sem verbalizar doutrinas, a rotina de Joaquim Pinto demonstra um foco deliberado naquilo que está ao seu alcance: o presente imediato, os pequenos rituais, o amor partilhado. Diante da incerteza radical do ensaio clínico e da progressão da doença, a sua atenção volta-se para o concreto, para a textura do pelo de um cão, para a luz que atravessa uma janela, para o som do vento. É a construção de um sentido através da imanência do quotidiano, uma forma de habitar um corpo fragilizado sem se deixar definir unicamente por essa fragilidade.
A presença de Nuno Leonel é fundamental para a estrutura emocional e narrativa da obra. A sua relação com Joaquim não é dramatizada nem romantizada. É apresentada como um facto, uma constante de companheirismo, cuidado e afeto que ancora o filme. Nuno é o parceiro silencioso, a testemunha, o coabitante deste universo particular. A dinâmica entre os dois, captada com uma naturalidade notável, revela que o filme é também sobre a natureza do amor a longo prazo, um amor que se manifesta menos em grandes gestos e mais na partilha persistente e inabalável de uma existência comum, com toda a sua beleza e dificuldade.
No final, ‘E Agora? Lembra-me’ apresenta-se como um documento singular sobre a experiência humana da doença crónica. Não procura dar lições nem extrair uma moral universal. Oferece, em vez disso, o registo despido de artifícios sobre a convivência diária com a própria finitude e a decisão de continuar a criar, a amar e a observar. É um ato cinematográfico que encontra o seu poder não no drama da condição médica, mas na atenção profunda dedicada aos pormenores que, em última análise, constituem uma vida.




Deixe uma resposta