Jem Cohen, munido de câmeras Super 8, 16mm e vídeo, passou uma década documentando a banda Fugazi, e o resultado é ‘Instrument’. O filme, mais um poema visual do que um documentário musical nos moldes tradicionais, desmonta a mitologia em torno do grupo de Washington D.C. para focar na mecânica, no suor e na ideologia que sustentaram uma das mais importantes formações do pós-hardcore americano. A obra de Cohen dispensa a cronologia linear e a narração explicativa, optando por uma colagem de momentos que revelam o funcionamento interno da banda, desde a intensidade controlada dos seus shows até a quietude pensativa de uma viagem de van ou a repetição exaustiva de um ensaio.
A estrutura fragmentada do filme reflete a própria natureza do trabalho da banda: uma coleção de peças, ideias e decisões que, juntas, formam um todo coeso e funcional. Não há aqui uma jornada de ascensão e queda. Em vez disso, o que se observa é o processo contínuo de manutenção de um ideal. Vemos Ian MacKaye, Guy Picciotto, Joe Lally e Brendan Canty não como estrelas do rock, mas como trabalhadores de uma pequena empresa autogerida, a Dischord Records, cuja política de ingressos a cinco dólares e aversão à grande mídia não eram posturas de marketing, mas sim regras operacionais fundamentais.
A análise de ‘Instrument’ revela um estudo profundo sobre a práxis, o conceito filosófico que une teoria e prática de forma inseparável. O Fugazi não apenas pregava uma ética de independência e crítica ao capitalismo; eles a viviam em cada show agendado, em cada disco prensado e em cada interação com o público. O filme captura essa fusão de maneira sublime, mostrando como a integridade da banda era um exercício diário de disciplina e negociação, tanto interna quanto externamente. As famosas sessões de perguntas e respostas com a plateia, aqui presentes, expõem a tensão e a responsabilidade que essa postura acarretava, transformando o espaço do show em uma arena de debate.
A cinematografia de Jem Cohen é um elemento crucial. A sua câmera é paciente, por vezes quase invisível, capturando a textura do cotidiano da banda. A qualidade granulada e imperfeita das imagens não é um defeito estético, mas uma escolha que espelha a sonoridade crua e a filosofia anti-comercial do Fugazi. O filme em si funciona como uma ferramenta, um instrumento, que permite observar o organismo vivo que era a banda. Cohen não busca polir a imagem do grupo, mas sim apresentar as engrenagens, o ruído e o silêncio que compunham a sua existência.
Ao final, ‘Instrument’ se firma como um documento essencial sobre a ética do trabalho e a viabilidade de se construir um caminho alternativo dentro de uma indústria predatória. É um registro sobre a gestão da energia, tanto a explosiva energia sônica dos palcos quanto a energia intelectual e emocional necessária para sustentar princípios sob constante pressão. A obra não oferece um manual de instruções, mas sim um retrato complexo e honesto de quatro indivíduos empenhados em alinhar a sua arte com a sua forma de estar no mundo, tornando-se um estudo de caso sobre autonomia e consistência que permanece singularmente relevante.




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