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Filme: "Legend" (1985), Ridley Scott

Filme: “Legend” (1985), Ridley Scott

Em Legend, Ridley Scott explora a eterna luta entre luz e trevas com Tom Cruise e Tim Curry. Uma fábula visualmente deslumbrante sobre a perda da inocência.


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Ridley Scott, embalado pela fantasia oitentista, orquestra em “Legend” uma fábula etérea sobre a eterna colisão entre luz e trevas. Tom Cruise, pré-Top Gun, encarna Jack, um habitante da floresta com uma pureza quase infantil, cuja missão é proteger Lily (Mia Sara), uma princesa curiosa e, digamos, excessivamente confiante em sua conexão com a natureza. Essa inocência é despedaçada quando a imprudência de Lily resulta no roubo de um unicórnio, evento que mergulha o mundo num inverno eterno, orquestrado pelo Senhor das Trevas (Tim Curry, em maquiagem icônica).

O que se segue não é uma jornada previsível de redenção, mas um mergulho nas profundezas da psique humana, onde a dualidade entre o bem e o mal se manifesta em alegorias visuais deslumbrantes. Scott não se furta em exibir uma estética carregada, com cenários exuberantes e figurinos teatrais, criando um universo onírico que remete a contos de fadas clássicos, mas com uma roupagem gótica e um tanto perturbadora. Há uma busca constante por beleza, mesmo nos recantos mais sombrios, uma espécie de reconciliação estética com o abismo.

O filme se equilibra entre a aventura juvenil e reflexões mais profundas sobre a natureza da escolha. Jack, longe de ser um guerreiro imaculado, precisa confrontar suas próprias fraquezas e aprender a abraçar a complexidade do mundo para restaurar o equilíbrio. A trama, em sua essência, é um estudo sobre o despertar da consciência, sobre a perda da inocência e a inevitável confrontação com as sombras que residem em cada um de nós. O maniqueísmo, aqui, não é tão simples quanto parece: a luz e a escuridão são forças complementares, interdependentes, e a verdadeira virtude reside na capacidade de navegar entre elas sem sucumbir à tentação do extremismo.

Curry, sob camadas de látex e efeitos especiais, entrega uma performance memorável como a encarnação do mal, não como uma força bruta e destrutiva, mas como um sedutor intelectual, um mestre da manipulação que oferece poder em troca de alma. A sua presença magnética, combinada com a direção estilizada de Scott, eleva “Legend” para além de um mero conto de fadas, transformando-o em uma experiência visual e sensorial que permanece relevante décadas após seu lançamento. A trilha sonora original, inicialmente composta por Jerry Goldsmith, e posteriormente parcialmente substituída por Tangerine Dream, adiciona outra camada de atmosfera, ora épica, ora etérea, sublinhando o caráter atemporal da narrativa. “Legend”, no fim das contas, é um lembrete de que a verdadeira batalha não se trava em terras distantes, mas dentro de nós mesmos.


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