Em um tempo fora do tempo, onde a luz do dia depende da pureza de dois unicórnios místicos, Ridley Scott constrói um ecossistema de fantasia que parece respirar. A floresta, banhada por uma luz dourada e poeira mágica, é o lar de Jack, um jovem da floresta interpretado por um Tom Cruise em ascensão, e o cenário de seu romance com a Princesa Lili. A premissa se desdobra com a simplicidade de uma fábula ancestral: a curiosidade de Lili a leva a cometer um ato proibido, tocar um dos unicórnios, o que quebra o equilíbrio do mundo. Este único gesto impulsivo serve como um convite para o Senhor das Trevas, uma entidade que anseia por uma noite eterna. O sol se apaga, um inverno perpétuo se instala e Lili é capturada, tornando-se o peão central em um plano para corromper a luz em sua fonte.
A jornada de Jack para resgatar a princesa e restaurar a ordem natural o leva das florestas idílicas para pântanos sombrios e masmorras subterrâneas, acompanhado por um grupo de criaturas fantásticas, como o elfo Gump e a fada Oona. O que se segue é uma busca estruturada nos moldes clássicos, mas a narrativa é, em grande parte, um veículo para a verdadeira força motriz do filme: sua estética operática e seu design de produção palpável. Longe de ser apenas um pano de fundo, o mundo de ‘A Lenda’ é um personagem por si só, concebido com uma atenção obsessiva aos detalhes, desde as folhas cintilantes no chão da floresta até a arquitetura orgânica e ameaçadora do covil subterrâneo. É uma obra que celebra os efeitos práticos, a maquiagem prostética e a cenografia monumental, criando uma experiência tátil que o cinema digital raramente consegue replicar.
No coração pulsante desta escuridão está a performance icônica de Tim Curry como o Senhor das Trevas. Coberto pela maquiagem transformadora de Rob Bottin, Curry entrega uma figura de poder monumental, cuja voz de barítono e presença física dominam cada cena. Ele não é apenas uma força de destruição; ele é a personificação da sedução, da entropia e de uma lógica própria, tentando atrair Lili não apenas pela força, mas pelo apelo ao seu lado sombrio recém-descoberto. É aqui que o filme toca sutilmente em uma ideia sobre a natureza da inocência: não como um estado permanente, mas como uma condição frágil, cuja perda, uma vez experimentada, deixa uma marca indelével. A restauração da luz no final não apaga por completo as sombras da experiência vivida por Lili.
A identidade complexa do filme é ainda mais evidenciada pela controversa existência de duas trilhas sonoras distintas, uma orquestral de Jerry Goldsmith e outra eletrônica do Tangerine Dream, cada uma moldando o tom da obra de maneira radicalmente diferente para públicos distintos. ‘A Lenda’ permanece um artefato singular na filmografia de Scott e na fantasia dos anos 80. Não é uma exploração complexa da psique humana, mas um espetáculo visualmente arrebatador, uma pintura em movimento que argumenta que, em certos contos, a forma como a história é mostrada é tão, ou mais, significativa do que a própria história. É um estudo sobre a beleza da criação de mundos, onde a atmosfera e a imagem reinam supremas.




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