“Viy or Spirit of Evil”, a produção soviética de 1967, dirigida por Konstantin Yershov e Georgi Kropachyov, transporta o público para um recanto sombrio do folclore ucraniano, adaptando com notável fidelidade a clássica novela de Nikolai Gogol. Este filme, uma joia incomum do cinema de horror da era soviética, mergulha na saga de Khoma Brutus, um estudante de seminário cuja jornada é abruptamente desviada para o reino do sobrenatural após um encontro fatídico com uma criatura das lendas.
Khoma, um sujeito espiritualmente fraco e propenso a prazeres mundanos, vê-se diante de uma penitência inusitada: passar três noites sozinho em uma antiga igreja desolada, rezando sobre o corpo de uma jovem recém-falecida, Pannochka. O que começa como uma mera obrigação religiosa rapidamente se metamorfoseia em um confronto aterrorizante com as forças do mal. Pannochka, uma bruxa com quem Khoma teve um encontro anterior e fatal, não repousa em paz. A cada noite, a capela se torna um palco para manifestações cada vez mais grotescas, testando os limites da fé e da sanidade do protagonista em meio a eventos inexplicáveis e criaturas sobrenaturais.
A força de “Viy” reside menos em sustos baratos e mais na construção meticulosa de uma atmosfera de pavor psicológico. A direção habilidosa emprega efeitos práticos pioneiros para a época, criando criaturas e visões que, apesar da simplicidade técnica, permanecem perturbadoras e memoráveis. A própria igreja, isolada e escura, funciona como um personagem à parte, um local de transição forçada entre o mundano e o infernal, onde as fronteiras da realidade se desfazem sob o peso da superstição e da culpa.
O filme explora a fragilidade da crença humana quando confrontada com o irracional. Khoma, armado apenas com sua fé vacilante e rituais sagrados, personifica a luta do indivíduo perante o desconhecido e o inescapável. Sua posição, preso nesse espaço liminar entre a proteção divina e a invasão demoníaca, evoca uma reflexão sobre a resiliência (ou a falta dela) do espírito em situações de desespero abissal. A progressão do terror é um estudo gradual do colapso mental, onde a distinção entre a realidade e o delírio se esvai à medida que a noite avança.
“Viy or Spirit of Evil” é mais do que uma adaptação folclórica; é uma obra que se destaca por sua autenticidade cultural e por ousar apresentar o horror de uma maneira que diferia radicalmente das produções ocidentais contemporâneas. Sem depender de violência gráfica, o filme instaura seu terror através da tensão crescente e da visibilidade de criaturas que parecem emergir diretamente dos pesadelos mais arcaicos do folclore ucraniano. Seu legado perdura como um marco no cinema de horror, um testemunho da capacidade de contar histórias arrepiantes com inventividade e uma profunda imersão no sobrenatural. É uma experiência cinematográfica que ressoa pela sua singularidade e pela forma como solidifica o medo não no que é visto, mas naquilo que insiste em se manifestar diante da inação do protagonista.




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