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Filme: "Brick and Mirror" (1965), Ebrahim Golestan

Filme: “Brick and Mirror” (1965), Ebrahim Golestan

O filme de Ebrahim Golestan narra a crise de um taxista em Teerã após encontrar um bebê abandonado em seu carro. Sua jornada revela a alienação e a indiferença de uma sociedade moderna em caótica transformação.


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A noite em Teerã cai indiferente sobre Hashem, um motorista de táxi que termina seu turno não com o tilintar de moedas, mas com o choro de uma criança deixada no banco de trás. O que começa como um inconveniente absurdo rapidamente se transforma no eixo de sua existência. A mãe é uma figura anônima que desapareceu na multidão, deixando para trás um bebê e uma crise de responsabilidade que Hashem não pediu nem deseja. Este é o ponto de partida de Khesht o Ayeneh, a obra seminal de Ebrahim Golestan que delineou os contornos do cinema moderno iraniano muito antes do mundo prestar atenção.

A jornada de Hashem, acompanhado por sua namorada, Taji, é uma odisséia urbana através de uma Teerã em plena e caótica transformação nos anos 60. Ele quer se livrar do fardo; ela enxerga na criança a semente de uma vida que poderiam construir juntos. A busca por uma solução os leva a um percurso por delegacias, orfanatos e tribunais, cada instituição se revelando um nó em uma rede de burocracia impessoal e apatia social. Golestan não filma marcos turísticos, mas sim os espaços funcionais e desalmados de uma cidade que cresce sem planejamento, onde a arquitetura modernista nascente parece projetada para diminuir e isolar o indivíduo. A cidade não é um pano de fundo, mas uma força ativa, um organismo de concreto e tráfego que pressiona as decisões e a moralidade dos personagens.

O filme se aprofunda em um questionamento sobre a liberdade individual e o peso da escolha. Hashem encarna, de certa forma, o conceito sartreano de má-fé, a tentativa de negar a própria liberdade ao se ver como um objeto passivo das circunstâncias. Ele não se vê como um homem que tomou uma decisão de não cuidar da criança, mas como alguém forçado a abandoná-la por um sistema indiferente e uma situação impossível. Sua angústia não vem do ato em si, mas da tentativa constante de se convencer de que ele não tem outra saída, uma autoilusão para escapar da responsabilidade fundamental que a vida lhe impôs de forma aleatória.

Com uma formação em documentário, Ebrahim Golestan constrói a narrativa com uma estética de um realismo cru, quase tátil. Os longos planos-sequência, o som ambiente que captura o zumbido incessante da metrópole e a fotografia em preto e branco de alto contraste criam uma atmosfera de urgência e estagnação simultâneas. O trabalho de câmera não busca a beleza convencional, mas a verdade desconfortável dos rostos, dos gestos e dos ambientes. O relacionamento entre Hashem e Taji é dissecado sem sentimentalismo, expondo as fissuras em suas visões de mundo, onde a esperança dela colide com o pragmatismo cínico dele.

Ao final, Khesht o Ayeneh não se propõe a ser um guia moral. O filme de Golestan permanece como um documento poderoso sobre a alienação na era moderna e um estudo de personagem sobre a difícil tarefa de ser humano em um mundo que parece conspirar para nos tornar anônimos. A obra estabeleceu um precedente no cinema iraniano, mostrando que a câmera poderia ser uma ferramenta de investigação filosófica e social, examinando as rachaduras na fundação de uma sociedade que corria em direção ao futuro sem olhar para os indivíduos que deixava para trás.


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