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Filme: "Os Assassinos" (1964), Don Siegel

Filme: “Os Assassinos” (1964), Don Siegel

No clássico de Don Siegel, a pergunta não é quem matou Johnny North, mas por que ele não fugiu. Seus assassinos investigam e revelam uma história de paixão, ganância e traição que explica o seu destino.


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Dois assassinos profissionais, impecavelmente vestidos e com uma eficiência gélida, invadem uma escola para deficientes visuais. O alvo deles, Johnny North, um ex-piloto de corridas que agora ensina mecânica, é informado da chegada dos homens. Ele não foge, não luta. Simplesmente se senta e espera. Esta passividade desconcertante diante da morte é o motor que impulsiona a narrativa de “Os Assassinos”, de Don Siegel, um estudo brutal sobre a anatomia de um crime onde a pergunta principal não é “quem?”, mas “por quê?”. O mais velho dos matadores, Charlie, interpretado por um Lee Marvin no auge de sua forma intimidadora, não consegue aceitar a falta de reação da sua vítima. Para um homem cujo trabalho é pautado pela lógica e pelo profissionalismo, o comportamento de North é uma anomalia, uma quebra no código que o leva a uma obsessão pessoal para desvendar o que levou um homem a entregar a vida tão facilmente.

A busca de Charlie por respostas o mergulha, junto com seu parceiro mais jovem e impulsivo, em um quebra-cabeças montado através de flashbacks. Cada peça é uma entrevista com alguém do passado de Johnny North, revelando a história de um audacioso assalto a um carro-forte. Descobrimos a figura central de Sheila Farr, uma mulher cuja beleza e aparente vulnerabilidade funcionam como um campo gravitacional, atraindo North para uma órbita de perigo e desejo. Angie Dickinson constrói uma personagem que opera com uma ambiguidade calculada, uma figura que catalisa a ganância e a traição que permeiam a trama. O cérebro por trás da operação é o elegante e impiedoso Jack Browning, um papel que oferece a Ronald Reagan a oportunidade de subverter sua imagem pública com uma performance de frieza cortante, um empresário do crime cuja fachada respeitável esconde uma completa ausência de escrúpulos.

Originalmente concebido para a televisão, o longa-metragem foi considerado demasiado violento para a tela pequena na época, uma decisão que atesta a abordagem direta e sem adornos de Siegel. A violência aqui não é estilizada; é rápida, funcional e desprovida de qualquer glamour. A direção de Siegel é enxuta e econômica, focando na psicologia áspera de seus personagens e na mecânica implacável de suas ações. O filme opera como um marco de transição no cinema de crime americano, afastando-se das sombras e do fatalismo poético do film noir clássico para abraçar uma estética mais crua e colorida, um prenúncio da brutalidade que definiria o cinema da década seguinte. A estrutura não linear não serve apenas como um artifício narrativo, mas como um método de dissecação psicológica, mostrando como as escolhas do passado convergem para um único ponto final inevitável.

No centro do enigma de Johnny North, interpretado com uma melancolia resignada por John Cassavetes, reside um conceito que ecoa o estoicismo: a aceitação do próprio destino, ou amor fati. North não é um covarde; ele é um homem que compreendeu a totalidade de sua jornada, desde a paixão por Sheila até a traição de Browning. Ele viu o jogo até o fim e, ao perceber que não havia mais movimentos a serem feitos, simplesmente aceitou o xeque-mate. Sua recusa em lutar não é um ato de fraqueza, mas o reconhecimento final de que sua morte é a consequência lógica e intransferível de suas próprias decisões, um encerramento para o ciclo de desejo e decepção que ele mesmo iniciou.

Em última análise, “Os Assassinos” se revela menos sobre o assalto em si e mais sobre a corrosão moral que o dinheiro e a paixão podem infligir. É um filme sobre profissionais do crime que se deparam com a imprevisibilidade das emoções humanas. A investigação de Charlie não é por justiça ou por uma parte maior do dinheiro; é pela necessidade de restaurar a ordem em seu universo, de entender como um plano tão bem executado pôde ser desfeito por algo tão irracional quanto o amor e a traição. O filme de Siegel deixa uma impressão duradoura não pelo mistério resolvido, mas pela sua observação clínica de como a ganância transforma pessoas em instrumentos e como, no final das contas, certas dívidas são pagas com a própria vida, de forma silenciosa e sem protestos.


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