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Filme: "Alucarda" (1977), Juan López Moctezuma

Filme: “Alucarda” (1977), Juan López Moctezuma

O clássico do horror mexicano Alucarda retrata a rebelião carnal de duas jovens em um convento, onde um pacto de sangue desencadeia uma sinfonia de possessão, blasfêmia e histeria coletiva.


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Em um convento isolado, onde a disciplina e a oração são as únicas moedas de troca com a existência, a chegada da jovem órfã Justine perturba a rotina monástica. Ela logo cai sob o feitiço de Alucarda, uma presença enigmática e magnética que habita o local desde seu nascimento traumático nos escombros de uma ruína próxima. A ligação entre as duas é imediata, uma afinidade que transcende a amizade e mergulha em um território de devoção mútua e perigosa. Alucarda, com seus olhos de fogo e conhecimento de rituais esquecidos, guia Justine para longe dos dogmas do convento e em direção a um pacto selado com sangue e sussurros ancestrais, despertando forças que a estrutura religiosa não está preparada para conter.

O que se segue não é um simples conto de possessão, mas uma explosão de histeria coletiva e rebelião carnal. Juan López Moctezuma, com uma sensibilidade visual afiada por sua associação com Alejandro Jodorowsky, transforma o convento em um palco para o excesso barroco. A câmera se move com uma energia febril, capturando a desintegração da ordem em uma sinfonia de gritos, sangue e fogo. As tentativas de exorcismo se convertem em espetáculos de violência sádica, onde a fé dos clérigos se mostra tão brutal quanto a força que eles pretendem expurgar. A iconografia católica é subvertida, retrabalhada em imagens de êxtase profano e sofrimento sagrado, criando uma atmosfera de pesadelo psicodélico que define o cinema de horror mexicano dos anos 70.

A narrativa de Alucarda funciona como uma exploração da repressão e suas consequências inevitáveis. O convento, com suas paredes altas e regras rígidas, representa um sistema construído para anular o corpo, o desejo e qualquer forma de espiritualidade que não se encaixe em sua doutrina. Alucarda e Justine, por sua vez, encarnam o retorno do reprimido. Elas são a manifestação de uma energia primordial e indomável que a instituição tentou enterrar. A dinâmica pode ser vista como uma erupção do dionisíaco dentro de uma estrutura rigidamente apolínea; o caos, a paixão e a união mística com a natureza se insurgindo contra a razão, a ordem e a negação dos instintos. A loucura que se espalha pelo convento é a consequência direta da pressão exercida por esse sistema de controle.

Longe de ser apenas um exemplar do subgênero nunsploitation, o filme de Moctezuma se destaca pela sua seriedade estética e sua entrega total a uma visão particular. As atuações de Tina Romero como Alucarda e Susana Kamini como Justine são de uma intensidade física rara, comprometidas com a expressão de um fervor que beira o delírio. A paleta de cores, dominada por vermelhos vívidos e brancos puros, e a trilha sonora dissonante amplificam a sensação de desorientação sensorial. É um cinema que não teme o grotesco ou o belo, muitas vezes encontrando um no outro. Cada quadro é carregado de uma energia operística, transformando a história em um ritual cinematográfico sobre a colisão entre a carne e o espírito, a liberdade e a subjugação. O resultado é uma peça de cinema febril e pictórica, uma obra que não busca a sutileza, mas a imersão total em um vórtice de paixão, blasfêmia e uma estranha, perturbadora forma de libertação.


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