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Filme: "In Memory of the Day Passed By" (1990), Sharunas Bartas

Filme: “In Memory of the Day Passed By” (1990), Sharunas Bartas

Numa Lituânia em preto e branco, o filme observa em silêncio a jornada de indivíduos por um cenário em ruínas.


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Numa paisagem urbana que parece ter sido esquecida pelo tempo, onde edifícios industriais se desfazem em silêncio, um pequeno grupo de indivíduos vagueia. O filme de estreia de Sharunas Bartas, ‘In Memory of the Day Passed By’, documenta a jornada quase sem propósito destas figuras através de uma Lituânia capturada num preto e branco granulado e austero. Sem uma única linha de diálogo, a narrativa é construída a partir de fragmentos de existência: um homem que toca acordeão para uma audiência indiferente, rostos observando o nada através de janelas sujas, corpos que se movem com um peso visível por ruas e interiores em decomposição. A obra não se apoia em eventos dramáticos ou pontos de viragem; o seu motor é a própria passagem do tempo sobre um cenário e sobre pessoas que parecem suspensas num estado de perpétua espera.

A abordagem de Bartas é radicalmente sensorial. Ao remover a palavra, o cineasta força o espectador a sintonizar-se com outras frequências: o som do vento que assobia por estruturas metálicas corroídas, o rangido de portas, o ruído ambiente de uma cidade que respira com dificuldade. A câmara permanece frequentemente estática, observando em longos planos a quietude ou o movimento lento das personagens, transformando cada enquadramento numa composição pictórica de desolação e beleza crua. Esta paciência visual não procura testar a audiência, mas sim imergi-la completamente num estado de espírito, numa atmosfera onde o passado recente pesa mais do que qualquer perspetiva de futuro. É um exercício cinematográfico que define as bases de um estilo que o realizador lituano exploraria ao longo da sua carreira, um cinema do corpo, do espaço e da duração.

É aqui que a obra se aprofunda, tornando-se um documento sobre uma condição histórica específica sem nunca a nomear. O cenário pós-soviético não é apenas um pano de fundo, mas a própria substância do filme. As ruínas não são meramente estéticas; são os vestígios de uma utopia falhada, um sistema que colapsou e deixou para trás um vácuo. Neste sentido, o filme opera dentro de uma lógica que se aproxima do conceito de hauntologia, onde os fantasmas de futuros perdidos assombram o presente. As personagens não estão a avançar, estão a caminhar por entre os escombros de uma promessa quebrada. O “dia que passou” do título refere-se menos a um ciclo de 24 horas e mais a uma era inteira cujo fim deixou os seus habitantes numa espécie de limbo existencial.

Longe de ser um retrato de vitimização, ‘In Memory of the Day Passed By’ oferece uma observação de dignidade contida. A câmara de Bartas foca-se intensamente nos rostos, tratando-os como paisagens onde se inscrevem histórias não contadas. Há uma profunda humanidade na forma como o filme registra a simples presença destas pessoas no mundo, a sua fisicalidade, o seu cansaço. A obra não oferece explicações sobre quem são ou para onde vão, e é precisamente nessa recusa que reside a sua força. O que fica é a imagem indelével de uma existência que persiste, a textura de um tempo estagnado e a sonoridade de um silêncio carregado de história. É uma peça fundamental para compreender não só o cinema de Sharunas Bartas, mas também a linguagem do chamado slow cinema como ferramenta para explorar a memória coletiva e o estado da alma.


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