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Filme: "Tiresia" (2003), Bertrand Bonello

Filme: “Tiresia” (2003), Bertrand Bonello

Tiresia retrata a jornada de uma mulher trans brasileira que, após ser sequestrada e cegada por um esteta, renasce como uma oráculo com dons proféticos.


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Nas margens de Paris, entre as árvores do Bois de Boulogne, vive Tiresia, uma mulher trans brasileira de beleza singular, quase divina. A sua existência é abruptamente interrompida quando Terranova, um esteta com uma obsessão por formas puras e transcendentes, a sequestra. Ele não a vê como uma pessoa, mas como a manifestação de um ideal. Trancada em um quarto, Tiresia se torna seu objeto de contemplação. O sequestro assume contornos de um experimento cruel quando Terranova a priva de seus hormônios, forçando uma regressão física que destrói a imagem feminina que tanto o fascinava. A sua criação desmorona diante de seus olhos e, em um ato de fúria e desapontamento, ele a cega e a abandona em uma área rural desolada.

É nesse ponto que o filme de Bertrand Bonello se desdobra em sua segunda e mais enigmática metade. Encontrada por uma jovem chamada Anna, que a acolhe sem fazer perguntas, Tiresia, agora privada da visão externa, começa a desenvolver uma visão interior. Ela manifesta dons proféticos, prevendo eventos locais com uma precisão desconcertante. Sua pequena fama atrai a atenção da comunidade e, inevitavelmente, da igreja local, que vê em suas habilidades uma ameaça ou, talvez, um milagre perigoso. A figura que antes era definida pelo olhar alheio sobre seu corpo agora ganha poder justamente pela ausência de visão, transformando-se em um oráculo relutante, uma figura que perturba a ordem estabelecida.

Bonello não se limita a recontar o mito grego; ele o desconstrói para explorar questões profundamente contemporâneas sobre identidade, o corpo e a percepção. O corpo de Tiresia se torna um território em disputa, um campo de batalha para identidades impostas e autoconstruídas, primeiro através da transição hormonal, depois pela violência de Terranova. Há aqui um eco do conceito do corpo como projeto, uma entidade em constante fluxo, moldada tanto pela vontade própria quanto pela força externa. A câmera de Bonello observa com uma distância calculada, quase clínica, registrando as transformações físicas e espirituais de sua personagem principal sem sentimentalismo, permitindo que a crueza dos eventos fale por si.

Dessa forma, a obra se consolida como uma peça fundamental no cinema francês contemporâneo, articulando um diálogo entre o clássico e o moderno, o sagrado e o profano. O percurso de Tiresia, da objetificação sexual no bosque parisiense à veneração mística no campo, examina como o valor de uma pessoa é construído e desconstruído pelo olhar dos outros. O filme opera em uma dualidade constante, opondo a luz crua da cidade à escuridão premonitória do campo, a visão que aprisiona à cegueira que liberta. É uma análise austera e formalmente rigorosa sobre a fluidez do ser e a brutalidade contida no ato de definir o outro.


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