Num dos cantos mais remotos e inóspitos da Sibéria, entre as montanhas Sayan, sobrevive o povo Tofalar. É para este cenário de isolamento quase absoluto que uma jovem mulher, interpretada pela etérea Katerina Golubeva, viaja. A sua motivação permanece um enigma, um não-dito que paira sobre a narrativa rarefeita de ‘Few of Us’. O filme de Sharunas Bartas acompanha a sua chegada e permanência nesta comunidade esquecida pelo tempo, onde a comunicação verbal é praticamente inexistente e as trocas se dão através de olhares, gestos contidos e uma partilha silenciosa do espaço. Ela observa os rituais diários, a lida com as renas, os momentos de festa ruidosa e alcoólica, e é, por sua vez, observada com uma curiosidade passiva, como um objeto exótico que pousou numa paisagem imutável.
A obra de Bartas opera para além da estrutura convencional de um documentário etnográfico ou de um drama ficcional. A câmara não busca explicar ou traduzir a cultura Tofalar para o espectador; em vez disso, posiciona-se como um segundo observador, tão alienígena quanto a sua protagonista. O que se desenrola é uma exploração cinematográfica do conceito do Outro, a constatação da distância intransponível que existe entre subjetividades distintas. A interação não resulta em compreensão mútua ou epifanias culturais, mas sim na intensificação de uma solidão fundamental, partilhada por todos os seres perante a vastidão indiferente da natureza. Os longos planos estáticos, característicos do realizador lituano, forçam o espectador a habitar o tempo do filme, a sentir o peso do silêncio e a examinar os rostos dos Tofalar, que funcionam como mapas de uma vida inteira de adversidades e pequenas alegrias.
O design sonoro é um elemento crucial, onde o vento cortante, o som de passos na neve e os ruídos de uma vida comunal rústica compõem a verdadeira banda sonora. ‘Few of Us’ é um exercício de cinema sensorial e atmosférico que se abstém de conclusões morais ou narrativas simplificadas. A sua força reside precisamente naquilo que omite: o contexto, a psicologia explícita, o diálogo expositivo. O filme apresenta uma experiência de imersão no estranhamento, um estudo sobre a presença e a ausência, e sobre o olhar como principal ferramenta de apreensão do mundo. Permanece como uma peça singular sobre o encontro humano no seu estado mais cru e enigmático, onde a paisagem é tão ou mais expressiva do que qualquer personagem.




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