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Filme: "Viva la muerte" (1971), Fernando Arrabal

Filme: “Viva la muerte” (1971), Fernando Arrabal

Viva la muerte, de Fernando Arrabal, retrata a psique fragmentada de um garoto no pós-Guerra Civil Espanhola, abordando trauma, memória e a repressão materna impiedosa.


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Fernando Arrabal, em ‘Viva la muerte’, transporta o espectador para o universo psíquico fragmentado de Fando, um jovem garoto vivenciando a atmosfera sufocante do pós-Guerra Civil Espanhola. A narrativa acompanha Fando enquanto ele tenta desvendar o paradeiro de seu pai, denunciado por sua própria mãe e levado pela milícia. Este evento traumático impulsiona uma exploração visceral das memórias e fantasias do menino, que se misturam sem distinção, criando uma realidade distorcida pela dor, pela culpa e pela autoridade materna implacável. O filme não se limita a contar uma história, mas a vivenciar a desintegração de uma mente infantil sob pressões extremas.

A obra se aprofunda na psique de Fando através de uma estética chocante e onírica. A cada cena, a linha entre o real e o imaginário dissolve-se, revelando os medos, os desejos proibidos e as obsessões sexuais e religiosas que permeiam a infância do protagonista. A figura da mãe emerge como um arquétipo de tirania e hipocrisia, controlando a vida de Fando com uma mão de ferro, enquanto sua ausência moral e emocional molda o mundo interior do filho. As sequências, muitas vezes explícitas e desconfortáveis, servem como janelas para os tormentos internos de Fando, expressando a brutalidade da censura e da doutrinação que corroem a inocência.

‘Viva la muerte’ não é apenas uma exploração da individualidade oprimida; é também uma análise do impacto de um regime autoritário na formação do caráter e na percepção da verdade. A maneira como a sociedade e a família impõem suas normas e crenças, muitas vezes de forma violenta, é escrutinada através do olhar perturbado de Fando. Em um contexto onde a verdade oficial e a fé cega substituem a compaixão e a lógica, a mente humana, especialmente a de uma criança, pode construir universos alternativos para lidar com o insuportável. A percepção da realidade, então, não é um dado objetivo, mas uma construção individual, moldada por traumas e pela necessidade de sobrevivência psíquica.

O estilo visual de Arrabal, marcado por cores vibrantes e contrastes acentuados, alterna-se com um preto e branco cru, intensificando a natureza surreal e perturbadora da jornada de Fando. A trilha sonora e o design de som complementam essa atmosfera, criando uma experiência sensorial imersiva que prende o espectador no fluxo errático dos pensamentos do protagonista. A obra consegue ser chocante sem ser gratuito, utilizando a transgressão como ferramenta para expor as feridas da sociedade e da alma.

Ao final, ‘Viva la muerte’ permanece como um documento cinematográfico corajoso e inesquecível sobre as consequências da repressão e do trauma. Ele provoca reflexões sobre a liberdade individual, a memória e a forma como as experiências da infância podem moldar destinos de maneiras imprevisíveis. Arrabal concebe um universo onde a crueldade e a ternura se entrelaçam de forma desconcertante, deixando uma impressão duradoura sobre a fragilidade da psique humana diante da barbárie. É uma obra que se consolida na história do cinema por sua abordagem intransigente de temas complexos e por sua visão artística singular.


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