Em ‘As Ciências Naturais’, o diretor Matías Lucchesi nos transporta para uma escola interna isolada na vasta Pampa argentina, um cenário que ecoa a introspecção de sua protagonista, Lila. Com apenas doze anos, Lila manifesta uma obsessão incomum para sua idade: a busca incansável pelo paradeiro de seu pai biológico. A premissa do filme estabelece uma jornada íntima de descoberta, onde a ciência, sob a forma de genética e hereditariedade, torna-se a bússola para sua inquietude, delineando a trama do filme As Ciências Naturais.
Lila não é uma criança que espera. Munida de uma lista de nomes e algumas pistas – ou o que ela imagina serem pistas genéticas –, a menina empreende uma série de investigações clandestinas. Ela interroga sua mãe, busca informações em registros, e até tenta manipular testes de DNA, tudo com uma seriedade que beira o desespero calculado. Sua jornada é uma odisseia particular, pontuada por encontros breves e revelações parciais que, em vez de oferecerem clareza, apenas aprofundam o mistério de suas origens. A narrativa acompanha essa persistência quase quixotesca, mostrando a solidão inerente à sua missão de encontrar o pai, um tema central na sinopse de As Ciências Naturais.
O que ‘As Ciências Naturais’ realmente explora não é apenas a busca por uma figura paterna, mas a complexa teia da identidade e o papel da ancestralidade na formação do indivíduo. A vastidão da Pampa, com sua paisagem desolada e imponente, serve como metáfora para a imensidão do desconhecido que Lila tenta desvendar em sua própria história. A curiosidade infantil da protagonista se transforma em uma meditação sobre a causalidade da existência: o quanto somos definidos por aqueles que nos precederam? O filme de Matías Lucchesi convida a refletir sobre a força motriz por trás da necessidade humana de saber de onde viemos, de mapear a própria genealogia como um caminho para a autocompreensão. Não há melodrama aqui, mas uma observação perspicaz da tenacidade de uma criança diante de um anseio fundamental.
Lucchesi constrói uma narrativa envolvente com uma sensibilidade notável, evitando simplificações. ‘As Ciências Naturais’ se consolida como uma obra que, com poucos diálogos e uma atmosfera contemplativa, consegue comunicar a urgência e a vulnerabilidade da busca por pertencimento. A performance central de Paula Galinelli Hertzog, como Lila, é um estudo de determinação silenciosa, carregando o peso de sua jornada com uma maturidade que transcende sua idade. É um filme argentino sobre a perseverança diante do incerto, e sobre como, por vezes, as maiores descobertas são aquelas que nos levam de volta a nós mesmos, independentemente do que se encontra no fim do caminho. Uma adição significativa ao cinema argentino contemporâneo que ressoa pela sua honestidade e profundidade na exploração da identidade.




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