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Filme: "Oxhide II" (2009), Liu Jiayin

Filme: “Oxhide II” (2009), Liu Jiayin

Oxhide II de Liu Jiayin mostra a cineasta e seus pais preparando uma refeição em Pequim. O filme documenta o cotidiano familiar com observação detalhada e takes longos.


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Oxhide II, de Liu Jiayin, emerge como uma peça singular no panorama do cinema independente contemporâneo, situando a experiência cinematográfica em um terreno de observação paciente e meticulosa. A trama, se é que se pode chamar assim, é incrivelmente simples na sua superfície: o filme captura a própria cineasta ao lado de seus pais, o Sr. e a Sra. Liu, na intimidade de seu pequeno apartamento em Pequim, enquanto se dedicam à preparação e ao consumo de uma refeição, tipicamente macarrão ou bolinhos. É uma imersão quase em tempo real no cotidiano doméstico, desprovida de artifícios narrativos convencionais ou reviravoltas dramáticas.

O que eleva Oxhide II muito além de um mero registro caseiro é a forma como Liu Jiayin emprega sua câmera. Com tomadas extremamente longas e uma fixidez que beira o radical, a diretora transforma o espaço confinado da cozinha-sala em um palco para a interação humana em sua forma mais crua e despretensiosa. A câmera se posiciona como um observador silencioso, mas intensamente presente, registrando cada movimento, cada palavra, cada silêncio que preenche o ambiente. O foco recai sobre os detalhes minuciosos do trabalho manual – o amassar da massa, o picar dos vegetais, o cozinhar – transformando essas ações mundanas em um estudo sobre a dedicação, a repetição e o ritmo da vida familiar.

À medida que os pais de Liu Jiayin trabalham e conversam, emerge um retrato multifacetado das dinâmicas familiares. O pai, com sua fala mais prolixa e por vezes filosófica, contrasta com a mãe, pragmática e focada na tarefa imediata. Discrepâncias de opinião surgem, discussões banais se transformam em pequenos atritos, e momentos de carinho se entrelaçam com silêncios que revelam décadas de convivência. A cineasta, em sua modesta participação, ora observa, ora interage, ora se torna o objeto da atenção dos pais, adicionando uma camada meta ao ato de documentar a própria família.

A duração das sequências, uma escolha estilística que pode inicialmente testar a paciência do espectador, revela-se, no entanto, um dos maiores trunfos da obra. Ela permite que a realidade se desdobre em seu próprio ritmo, sem a artificialidade da edição rápida ou do enquadramento seletivo. Isso gera uma sensação de autenticidade rara, onde a vida é apresentada em sua totalidade fluida, não como uma série de eventos isolados, mas como um contínuo fluxo de existência. O filme se torna uma meditação sobre a passagem do tempo e a forma como a presença se manifesta nos atos mais simples e repetitivos do dia a dia. É nesse prolongado convívio visual que a obra propõe uma reavaliação do que constitui o digno de ser filmado, encontrando profundidade e significado nas interações cotidianas e na laboriosa preparação de uma refeição. Ao final, Oxhide II não oferece uma narrativa convencional, mas uma experiência visceral da vida real em suas nuances e complexidades.


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