Cultivando arte e cultura insurgentes


O cruising está de volta (ou ele sempre esteve aqui?)

Mesmo na era digital, o cruising resiste — encontros anônimos que o Sniffies reinventa, devolvendo ao desejo a espontaneidade e o anonimato que sempre o definiram


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Cruising: esse termo pode lhe soar enigmático — e, de fato, carrega uma aura que atravessa esquinas sombreadas, parquímetros desligados e olhares que falam sem palavras. No coração dessa prática está uma premissa: a busca por sexo impessoal em locais públicos — banheiros, parques, saunas, cinemas velados pela penumbra — um ritual tão antigo quanto as cidades em que acontece, e que floresceu nos interstícios da necessidade social e da clandestinidade. É nesse terreno obscuro que se forjou a política queer da visibilidade furtiva: o cruising não foi apenas um modo de desejar, mas também de existir, de confrontar a norma com o corpo, o toque, a presença não solicitada. Na memória de David Wojnarowicz, caminhando por armazéns abandonados na margem oeste de Manhattan, ele via “homens em vários estágios de inclinação” entre sombras e corredores esquecidos — a coreografia do desejo se desenrolava sem explicitação verbal. Em Andrew Holleran, os vazios se transformavam em “aglomerados escuros” sob o luar de lotes desérticos. E em Samuel Delany, um auditório de cinema se tornava palco de corpos que se deslocavam em busca de algo compartilhado, sem promessa nem nome, apenas a urgência do encontro.

Esses relatos são o pulso original do cruising: um movimento silencioso e resistente contra o apagamento e o isolamento impostos pelo estigma e pela criminalização.

Quando o mundo gay passou a flertar com a internet e, depois, com aplicativos como o Grindr — que mudou o contexto do sexo casual, trazendo-o para dentro de telas — a experiência sexual foi deslocada da rua para a vitrine. Perfis cuidadosamente construídos, biografias lapidadas, fotos pensadas para atrair quem desliza o dedo: a busca não era mais um instante furtivo, era um esforço consciente. Um estudo divulgado pela New Yorker apontou que, entre 2007 e 2019, houve uma queda de 36% no número de bares LGBTQ+ nos Estados Unidos — sinal talvez de uma vida social esvaziada do corpo, migrando para o ciberespaço, reduzida à imagem e à promessa de performance.

Nesse vácuo entre o desejo sincero e o formato, surgiu o Sniffies, em 2018. Criado por Blake Gallagher, foi concebido como um antídoto à esterilidade dos apps tradicionais. Aqui, não há fotos, e-mails, bios — apenas um mapa em tempo real que revela corpos próximos, insinuando possibilidades sem exigência de aparência; uma prática restaurada do cruising via geolocalização, mas que guarda anonimato e espontaneidade  . Sniffies opera com dois pilares poéticos: “prospect” — a visão total do entorno urbano, a presença suspensa no mapa — e “refuge” — o refúgio anônimo, a identidade protegida, o controle do quanto e quando se expõe.

Nos primeiros tempos, Gallagher tocou o projeto sozinho. Mas, conforme o site cresceu, recrutou apoio técnico e trouxe Martin — colega dos tempos de faculdade — para lidar com marketing e expansão. Ele, que hoje veste jeans largos e lembra um boy-band revival, assumiu a missão de mover o Sniffies do underground para um território mais amplo e menos estigmatizado. “Precisávamos educar em torno do cruising”, disse, referindo-se ao fato de que muitos ainda associam a prática a devassidão ou criminalidade — lembranças turvas de filmes e caças policiais que prefixaram a sexualidade queer com alerta vermelho.

Enquanto isso, um interesse renovado por cruising surgia em livros, exposições fotográficas e memórias literárias — como uma nostalgia crítica. Mostrou-se que essa forma de buscar o desejo continuava mais viva do que parecia, e que sua modernização poderia ser encarada não como regressão, mas como símbolo de resistência cultural.

Quando a pandemia estourou, Sniffies ganhou relevância inesperada: encontradores solitários e fragmentados buscavam formas de se tocar que fossem menos arriscadas do que bares fechados, e o mapa cru, em tela, passou a servir de guia para encontros ao ar livre, furtivos, urgentes. Em parte, isso foi possível porque estratégias de prevenção como o PrEP já existiam para reduzir o risco — as pessoas voltavam a atravessar praças e becos com menos medo, e o app estava ali, acendendo pontos de encontro no mapa  .

À medida que crescia, enfrentou disputas com as políticas das lojas de aplicativo. Sites como o da Apple proibiam imagens explícitas; por isso, Sniffies ficou por muito tempo restrito ao navegador. Mas em março de 2025 lançou (com cautela) um app iOS — com modos mais discretos (“vanilla mode”), integração melhorada e acesso mais ágil ao mapa — ainda mantendo como base o site, aquela experiência pura e sem compromisso.

Hoje, metade dos usuários têm menos de 30 anos e uma boa parte se identifica como bissexual, bicurioso ou mesmo hétero discreto — ampliando a compreensão de cruising como prática queer, sim, mas também como expressão de desejo não conformista, fora de etiquetas rígidas.

Não falta, claro, crítica ao modelo. Há relatos de rolagem compulsiva, cenas de uso de drogas e riscos de segurança que, quando envolvem anonimato, exigem cautela contínua  . E mesmo fora do campo sexual, o fato de um veículo como a New Yorker ter tratado do assunto gerou reação intensa — muitos acharam que estava expondo um espaço íntimo da comunidade queer à curiosidade externa. Comentários nas redes lembraram como muitos leitores da publicação podem não entender aquele território como algo mais que curiosidade de quinta-feira: “isso vai chegar à mesa de jantar dos meus pais”, escreveu uma pessoa irônica; outros reclamaram que a história parecia voyeurismo.

E aí está a beleza paradoxal: o cruising digital sucede porque reativa — com urgência — algo que sempre foi central nos corpos que se tocam em redes furtivas. Ele resiste ao perfil como performance, ao swipe como trabalho, à vida privada como redundância, e cuidadosamente retoma o que foi retirado pela pressão da normatividade: o inesperado, o anônimo, o visceral. O mapa brilhante na tela se converte na promessa de um corpo perto e libertado, mas sem exigência de imagem ou narrativa. Há, nesse ato de cruzar becos digitais, uma afirmativa silenciosa de que o desejo existe antes das categorias e resiste depois da vigilância. Mesmo depois da internet total, do app perfeito e da vigilância disfarçada, o desejo não curado — esse que é urgente, invisível, e insiste em romper o tempo — continua a buscar seus mapas. E esse mesmo desejo sequer utiliza bússola.


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