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Filme: "Demolition of a Wall" (1896), Louis Lumière

Filme: “Demolition of a Wall” (1896), Louis Lumière

Análise de “Demolition of a Wall”, filme de Louis Lumière que registra a destruição de uma parede e, ao ser invertido, desafia nossa percepção do tempo e da realidade. Uma reflexão sobre a impermanência e o devir.


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Um grupo de homens derruba uma parede. Simples assim. Em “Demolition of a Wall”, Louis Lumière registra, em pouco menos de um minuto, a destruição de uma estrutura. O que ele captura, porém, é mais do que um ato de demolição; é a decomposição da solidez, a transitoriedade inerente à matéria e a beleza encontrada na transformação. O filme, um dos pioneiros da história do cinema, não se propõe a narrativas complexas, mas oferece uma janela para o fascínio do movimento e da mudança, elementos que definiriam a sétima arte.

O interessante é observar a direção oposta que Lumière imprime ao reproduzir a cena. Ao ser exibido ao contrário, o que era desmoronamento se torna reconstrução. Essa simples inversão desafia nossa percepção linear do tempo e da causalidade. O que antes era o fim de uma estrutura, agora se configura como seu princípio. A parede, símbolo de separação e limite, ergue-se novamente. É um pequeno experimento cinematográfico que lança luz sobre a natureza mutável da realidade, e como a representação dela pode ser manipulada.

Ao analisar a obra sob uma lente filosófica, podemos evocar o conceito de devir, presente na filosofia de Heráclito e posteriormente reinterpretado por Nietzsche e Deleuze. O devir, em sua essência, postula que a realidade está em constante fluxo, em um processo incessante de transformação. Nada permanece estático; tudo está em um estado de vir a ser. “Demolition of a Wall”, em sua brevidade, captura essa essência do devir. A parede, seja em seu desmoronamento ou em sua reconstrução (cinematográfica), está sempre em movimento, sempre em um estado de transformação. Ela nunca é simplesmente uma parede; ela é um processo, uma manifestação da impermanência.

Longe de ser apenas um registro documental de um evento banal, o filme de Lumière oferece uma meditação sobre a natureza da mudança, a ilusão da estabilidade e a potência do cinema como ferramenta para manipular nossa percepção da realidade. É um exercício de observação que, mesmo em sua simplicidade, ecoa questões profundas sobre o tempo, a matéria e a nossa própria existência.


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