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Filme: "Jogos Viris" (1988), Jan Švankmajer

Filme: “Jogos Viris” (1988), Jan Švankmajer

Jogos Viris, animação surrealista de Jan Švankmajer, usa um jogo de futebol de argila para criticar a violência no esporte e a passividade do espectador perante a mídia.


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Numa sala de estar que parece suspensa no tempo, um homem afunda-se na sua poltrona, os olhos fixos na televisão. O ritual é universal: a cerveja, o cinzeiro a postos, a antecipação de um jogo de futebol. O que se desenrola no ecrã, no entanto, é uma criação inconfundível do mestre do surrealismo tcheco, Jan Švankmajer. Em ‘Jogos Viris’ (Mužné hry), a partida não é disputada por atletas, mas por figuras de argila que se moldam e desfazem com uma energia frenética. O campo de jogo é um palco para uma forma de animação stop-motion que é tão tátil quanto perturbadora, onde a fisicalidade dos materiais se torna parte integrante da narrativa.

O que começa como uma competição reconhecível rapidamente se desintegra numa sequência de desmembramentos e metamorfoses grotescas. A bola de futebol é substituída por uma cabeça de repolho, depois por uma cabeça humana de barro; os jogadores esmagam-se, fundem-se e devoram-se uns aos outros em busca da vitória. A cada golo ou falta violenta na televisão, o espectador na poltrona reage com uma paixão crescente, os seus próprios gestos e emoções a ecoar a brutalidade do jogo. A sua realidade passiva e a fantasia agressiva do ecrã começam a fundir-se, expondo a ténue fronteira entre o observador e o observado, entre o entretenimento e a cumplicidade na violência. Švankmajer não se interessa pela história do desporto, mas sim pelo seu mecanismo como catalisador de agressões tribais e fervor irracional.

A análise da obra vai além da simples crítica à violência no futebol. O filme funciona como uma dissecação precisa do conceito de espetáculo, onde a experiência mediada se torna mais intensa e significativa do que a própria vida. O homem na poltrona não está a viver, está a consumir uma representação hiperbólica da competição, uma catarse vicária que o drena e alimenta simultaneamente. A partida televisionada deixa de ser um mero evento para se tornar a própria realidade do seu observador, uma força que dita o seu estado emocional e físico. A curta-metragem articula, com um humor sombrio e cáustico, como os rituais modernos de consumo de media podem aprisionar o indivíduo num ciclo de paixão passiva.

Com a sua assinatura visual inconfundível, onde objetos do quotidiano ganham vida e a matéria orgânica se mistura com o inanimado, Jan Švankmajer constrói uma alegoria potente sobre a masculinidade, o nacionalismo e a cultura de massas. A sonoplastia, composta por ruídos viscerais e o som amplificado da multidão, complementa a animação claustrofóbica, criando uma experiência sensorial completa. ‘Jogos Viris’ é um olhar implacável sobre a forma como as paixões coletivas são fabricadas, consumidas e, finalmente, como elas consomem os seus próprios devotos, transformando a bancada do estádio ou a poltrona da sala de estar no verdadeiro campo de batalha.


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