Numa Saint-Tropez banhada por um sol que parece derreter a moralidade, uma jovem órfã chamada Juliette Hardy caminha descalça, indiferente ao rastro de desejo e perturbação que deixa. O filme de Roger Vadim, ‘E Deus Criou a Mulher’, não se apoia numa trama complexa, mas na observação quase documental do efeito que esta força da natureza, interpretada por uma incandescente Brigitte Bardot, exerce sobre a pequena comunidade costeira. Ameaçada de ser enviada de volta ao orfanato, Juliette se vê no centro de um tenso jogo masculino. De um lado, o rico e possessivo Eric Carradine, que deseja comprá-la como mais um dos seus iates de luxo; do outro, os irmãos Tardieu. Antoine, o mais velho, a cobiça com uma intensidade predatória, enquanto Michel, o mais novo e ingênuo, nutre por ela um afeto genuíno que o leva a um casamento de conveniência para salvá-la, um ato que detona uma cadeia de ciúmes e confrontos.
A narrativa, no entanto, é apenas o esqueleto sobre o qual Vadim constrói um estudo de personagem que se tornou um marco cultural. O verdadeiro evento do filme é a própria Brigitte Bardot. A câmara de Vadim não a objetifica de forma passiva; ela a segue com uma curiosidade fascinada, capturando a sua liberdade animal, a sua ausência de pudor e a sua sensualidade que não pede permissão para existir. Juliette não é uma sedutora calculista. As suas ações são guiadas por um impulso primitivo, uma honestidade brutal que desarma e expõe a hipocrisia de todos ao seu redor. Ela deita-se ao sol, dança com um abandono febril e ama com uma espontaneidade que a sociedade patriarcal da época simplesmente não sabia como processar ou conter.
Mais do que um drama romântico, a obra funciona como um sismógrafo das mudanças sociais da França do pós-guerra. Saint-Tropez, com os seus pescadores locais e a chegada dos novos ricos, é o palco perfeito para este choque entre o velho e o novo. Juliette personifica essa modernidade irrefreável, uma figura que se recusa a ser definida pelos papéis tradicionais de esposa, amante ou donzela. Há nela um eco de um existencialismo cru, onde a existência precede a essência; ela não se conforma a um ideal pré-estabelecido, ela simplesmente é, e o mundo que se ajuste à sua presença. A sua liberdade não é uma declaração política, mas uma condição natural do seu ser, o que a torna ainda mais perturbadora para a ordem vigente.
O filme alcança o seu clímax não num confronto verbal, mas na célebre sequência de mambo. Ali, a dança de Juliette é uma explosão de pura expressão física, uma catarse que transcende o diálogo e comunica a sua essência indomável de forma muito mais eloquente. É a libertação final de qualquer amarra social, um momento de pura energia que solidificou a imagem de Bardot como um ícone de uma nova feminilidade. A cinematografia em Eastmancolor satura a tela com os tons quentes do Mediterrâneo, transformando o ambiente num personagem ativo que pulsa com a mesma energia latente da protagonista. ‘E Deus Criou a Mulher’ permanece relevante não pela sua história, mas por ter capturado, e em grande parte criado, um mito. Foi o momento em que o cinema francês pressentiu a chegada da Nouvelle Vague, olhando diretamente para uma personagem que não se importava em ser amada ou odiada, desde que pudesse ser inegavelmente ela mesma.




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