Em 2012, um cometa avança em direção à Terra, prometendo o fim de tudo. Em uma loja de discos quase vazia em Tóquio, um pequeno grupo de pessoas espera pelo impacto. O gerente da loja decide colocar uma última música para tocar: uma faixa obscura de uma banda punk japonesa dos anos 70 chamada Gekirin, intitulada “Fish Story”. Ele acredita que esta canção, de alguma forma, pode salvar o mundo. O que se desenrola a partir deste ponto no filme de Yoshihiro Nakamura é uma das construções narrativas mais engenhosas e satisfatórias do cinema japonês moderno, um quebra-cabeça temporal que conecta décadas e destinos através da força imprevisível de uma única peça de música.
A narrativa salta agilmente entre diferentes épocas, cada uma apresentando um fragmento aparentemente isolado da história. Em 1975, acompanhamos a própria banda Gekirin, cheia de idealismo e frustração, gravando sua canção profética sem ter a menor noção de seu futuro alcance. Em 1982, um estudante universitário medroso em uma balsa sequestrada ouve uma história sobre a letra da música, um evento que mudará sua percepção sobre coragem. Em 2009, uma jovem estudante é salva de um predador por um cozinheiro que, por sua vez, foi inspirado por um ato de bravura que ele testemunhou anos antes. Cada um desses fios narrativos, separados por tempo e contexto, funciona como uma peça de dominó, posicionada com precisão para uma reação em cadeia que só se revela em seus momentos finais.
O que eleva “Fish Story” para além de um simples exercício de roteiro inteligente é a maneira como Nakamura equilibra o tom. O filme é uma comédia genuinamente engraçada, que encontra humor na inadequação de seus personagens e no absurdo das situações, mas nunca ridiculariza suas aspirações. Há uma sinceridade subjacente na paixão da banda punk, na timidez do estudante e na fé do gerente da loja. A direção de Nakamura é leve e energética, movendo a história com um ritmo contagiante que espelha a própria energia da canção punk que serve como seu eixo. A estrutura do filme opera como uma máquina de Rube Goldberg, onde cada ação, por menor que seja, desencadeia a próxima em uma sequência perfeitamente coreografada de causa e efeito.
No fundo, a obra funciona como uma exploração lúdica do efeito borboleta, demonstrando como as ações mais triviais e as expressões artísticas mais ignoradas podem reverberar através do tempo e do espaço de maneiras monumentais e totalmente anônimas. A canção “Fish Story” não foi um sucesso, a banda se desfez e seus membros seguiram caminhos distintos, mas o ato de sua criação se tornou uma força invisível que moldou o futuro. O filme de Yoshihiro Nakamura celebra a causalidade interconectada, a noção de que nossas vidas estão entrelaçadas por fios que talvez nunca vejamos. É uma construção otimista e profundamente humana sobre o legado e o poder de um gesto, uma nota ou uma palavra para alterar o curso da história, mesmo que ninguém esteja por perto para creditar a fonte.




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