‘Little by Little’, do mestre Jean Rouch, desafia classificações fáceis. A trama acompanha os etnólogos Lam e Illo, que após uma expedição de sucesso ao Níger, decidem aplicar seus métodos de observação antropológica… em Paris. A virada acontece quando Lam, inspirado pelos arranha-céus que viu na África, embarca em um ambicioso projeto arquitetônico: construir um prédio de escritórios no coração da capital francesa.
O filme se desenrola como uma experimentação sociológica peculiar. Lam e Illo, armados com câmeras e questionários, entrevistam parisienses, registram seus hábitos e tentam compreender a lógica urbana. O que se segue é um choque cultural hilário e revelador. As reações dos parisienses, inicialmente curiosas, logo se tornam céticas e até hostis diante dos métodos pouco ortodoxos dos etnólogos-arquitetos.
Rouch subverte a tradicional relação entre observador e observado, transformando os etnólogos em objetos de estudo. A inversão de papéis expõe as fragilidades e os preconceitos inerentes à pesquisa antropológica, ao mesmo tempo em que oferece um retrato satírico da modernidade e da burocracia. A leveza da narrativa, pontuada por momentos de humor nonsense, esconde uma reflexão profunda sobre a globalização e o desencontro entre culturas.
A aparente ingenuidade da dupla africana, confrontada com a complexidade do mundo ocidental, serve como um filtro para desconstruir as certezas eurocêntricas. O filme, que à primeira vista parece uma comédia exótica, revela-se um estudo arguto sobre a percepção, a identidade e as armadilhas da representação. A construção do prédio, que se torna uma saga repleta de percalços, funciona como uma metáfora da dificuldade de se construir pontes entre mundos diferentes. Nesse contexto, o trabalho de Rouch evoca a dialética entre o Mesmo e o Outro, um tema central na filosofia de Lévinas, ao explorar o encontro, nem sempre harmonioso, entre culturas diversas e perspectivas distintas.




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