Em ‘Season of the Devil’ (Ang Panahon ng Halimaw), o diretor filipino Lav Diaz nos transporta para as Filipinas dos anos 1970, um período marcado pela implantação da lei marcial sob o regime de Ferdinand Marcos. O filme centraliza-se na figura de Hugo Haniway, um professor universitário e poeta, cuja esposa, Lorena, uma médica dedicada, desaparece enquanto presta auxílio em uma comunidade remota. Lorena se aventurou em uma área controlada por forças paramilitares, agentes de uma brutalidade sistêmica, e sua ausência lança Hugo em uma jornada de busca desesperada, que o confronta com a paisagem desoladora de um país mergulhado em opressão.
A narrativa desenrola-se de forma singular como uma ópera rock a cappella, onde todo o diálogo é cantado, transformando a comunicação em uma melodia primal de dor e desespero. Esta escolha artística não se limita a um mero artifício estético; ela eleva a experiência, conferindo uma dimensão visceral às emoções e ao caos que permeiam a vida sob a ditadura. O canto se torna o próprio tecido da existência em tempos de horror, uma manifestação crua da alma de uma nação subjugada, onde as palavras faladas perderam seu poder e a expressão musical se torna a única forma de articular a verdade e o sofrimento.
Diaz mergulha fundo nas profundezas da desumanização e da violência estatal, explorando como o poder absoluto pode corromper e desfigurar a sociedade. A “estação do diabo” do título não alude a uma entidade sobrenatural, mas sim à manifestação de uma crueldade inerente à condição humana quando liberada pelas rédeas da lei e da moralidade, institucionalizada por um regime. A busca de Hugo por Lorena se interlaça com o cotidiano de comunidades oprimidas, revelando a teia de paranoia, medo e brutalidade que oprime a todos. O filme examina como a supressão da liberdade e a propagação do terror transformam não apenas o ambiente físico, mas a própria psique das pessoas, forçando-as a lidar com escolhas existenciais em um cenário de privação extrema e ameaça constante.
A extensa duração da obra, característica marcante do cinema de Diaz, aliada à fotografia em preto e branco, impõe um ritmo contemplativo que convida à imersão profunda na atmosfera de desesperança e luta. Não há atalhos ou simplificações; o filme exige paciência e entrega, recompensando o espectador com uma compreensão mais aguda da persistência da injustiça histórica e do custo humano da tirania. É um trabalho que, através de sua forma e conteúdo, provoca uma reflexão sobre a capacidade humana de infligir e suportar a dor, e como o conceito de uma verdade objetiva pode ser pulverizado por narrativas de poder e medo, forçando uma reavaliação constante da realidade.
‘Season of the Devil’ não apenas documenta um período sombrio da história filipina; ele o recria como uma experiência catártica e profundamente ressonante. Ao retratar a busca pela dignidade e pela humanidade em um mundo onde ambas parecem ter sido esquecidas, o filme de Lav Diaz se estabelece como um trabalho essencial, que ecoa a persistência da memória coletiva e a força da expressão artística em face da opressão. Ele é uma meditação sobre a maneira como a maldade sistemática pode se enraizar na sociedade, e como a arte pode servir como um testemunho duradouro contra o esquecimento.




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