No epicentro de um furacão de excessos em Miami, vive Matty, um ator de sucesso interpretado por Matthew Modine em uma performance de pura eletricidade nervosa. A sua vida é um ciclo vertiginoso de festas, álcool e drogas, partilhada com a sua namorada, Annie, papel de uma magnética e imprevisível Béatrice Dalle. A relação dos dois é uma colisão de paixão e autodestruição, culminando numa noite particularmente brutal. Após uma discussão violenta, Matty mergulha de cabeça num apagão alimentado por substâncias, acordando no dia seguinte sem qualquer memória do que aconteceu. Annie desapareceu, e no lugar das recordações, existe apenas um vazio negro e assustador que começa a consumir a sua sanidade.
Um ano depois, o cenário é outro. Nova Iorque, uma tentativa de sobriedade e uma nova vida ao lado de uma jovem modelo, Susan, interpretada por Claudia Schiffer. Matty frequenta reuniões dos Alcoólicos Anónimos e tenta reconstruir uma normalidade que parece sempre frágil, assombrada pela ausência de respostas sobre aquela noite específica. A tranquilidade é uma fachada fina que se estilhaça com a notícia de que um antigo conhecido de Miami, Mickey, vivido por um Dennis Hopper no seu registo mais enigmático e paternalmente perigoso, pode ter uma gravação em vídeo dos eventos perdidos. A possibilidade de finalmente saber a verdade, por mais terrível que seja, torna-se uma obsessão que o puxa de volta para o sul da Flórida, para o mesmo ambiente decadente do qual tentou escapar.
O regresso de Matty a Miami é uma descida a um inferno pessoal e estilizado. Abel Ferrara filma a cidade não como um paraíso de néon, mas como um purgatório húmido e pegajoso, onde fantasmas do passado se materializam em cada esquina de bar e quarto de hotel. A direção de Ferrara recusa qualquer polimento, optando por uma câmera na mão, uma estética suja e uma montagem fragmentada que reflete o estado mental despedaçado do seu protagonista. A busca pela fita de vídeo transforma-se numa jornada errática através de um submundo povoado por figuras que parecem conhecer fragmentos da sua história, cada um oferecendo uma peça de um quebra-cabeça que Matty teme montar por completo.
The Blackout funciona menos como um thriller de mistério e mais como um estudo de personagem sobre a desintegração psicológica. O que Ferrara investiga aqui é a natureza da identidade como uma construção narrativa. Matty não procura apenas um facto, ele procura a si mesmo. Sem a memória daquela noite, a sua própria história fica incompleta, o seu presente torna-se ilegítimo e o seu futuro, impossível. A angústia não vem apenas da possibilidade de ter cometido um ato atroz, mas do terror existencial de não saber do que se é capaz. É um filme sobre o colapso da consciência quando a continuidade da memória é quebrada, deixando um homem à deriva, assombrado por um crime que ele pode ou não ter cometido, transformado no espectador aterrorizado do seu próprio filme perdido.




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