“Tale of Tales”, do cineasta italiano Matteo Garrone, tece uma tapeçaria complexa e visualmente suntuosa de três contos de fadas interligados, extraídos do “Pentamerone” de Giambattista Basile, uma coletânea napolitana de narrativas folclóricas do século XVII. Longe das versões açucaradas da Disney, o filme mergulha em um mundo onde a busca pela beleza, juventude e imortalidade se manifesta em obsessões sombrias, sacrifícios brutais e consequências inesperadas.
O primeiro conto acompanha uma rainha obcecada em conceber um herdeiro, disposta a tudo para realizar seu desejo, inclusive a consumir o coração de um monstro marinho cozido por uma virgem. A gravidez resultante traz um custo terrível e inesperado. A segunda trama segue um rei lascivo que se apaixona pela voz de uma velha camponesa, a qual, por meio de magia, recupera sua beleza e juventude, apenas para descobrir que a frivolidade e o ciúme o destroem. A terceira história narra as desventuras de um rei que se encanta com uma pulga gigante, negligenciando a própria filha, que é prometida em casamento a um ogro grotesco.
Garrone abandona os clichês do gênero fantástico e opta por uma representação crua e visceral da natureza humana, explorando temas como a vaidade, o desejo, o poder e a inevitabilidade da decadência. As paisagens exuberantes e os figurinos elaborados contrastam com a brutalidade das ações dos personagens, criando uma atmosfera onírica e perturbadora. A narrativa, fragmentada e não linear, desafia as expectativas do público, sem impor moralismos fáceis, e convida à reflexão sobre as escolhas que moldam nossos destinos. A direção de arte impecável e os efeitos visuais, que misturam o orgânico e o fantástico, contribuem para a imersão em um universo onde a fantasia se encontra com o horror, onde a beleza esconde a perversidade e onde a busca pela felicidade pode levar à ruína. O filme, como uma alegoria da condição humana, reflete sobre a eterna insatisfação e a busca incessante por algo mais, mesmo que esse algo mais custe caro demais. É um estudo sobre a fragilidade do poder e a futilidade de tentar controlar o incontrolável, um eco distante das reflexões de Schopenhauer sobre a vontade e o sofrimento.




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