“Do Rah-e Hal Baraye Yek Mas’aleh” (Duas Soluções para um Problema), a curta-metragem de Abbas Kiarostami, destila em poucos minutos uma complexidade moral surpreendente, sem jamais recorrer a sermões ou didatismos exagerados. A narrativa acompanha dois garotos em uma bicicleta. Um deles, sem querer, derruba o caderno do outro. A partir desse incidente banal, Kiarostami tece uma reflexão sutil sobre responsabilidade, arrependimento e as escolhas que moldam nosso caráter.
O filme, aparentemente simples, oferece duas resoluções distintas para o mesmo problema. A primeira, mais imediata, mostra o garoto causador do incidente apressado em remediar o erro, correndo para apanhar o caderno e devolvê-lo ao amigo. A segunda solução, mais ponderada, apresenta um garoto que reflete sobre suas ações, internaliza a culpa e busca uma forma genuína de compensar o amigo pelo transtorno causado.
Kiarostami, fiel ao seu estilo minimalista e observacional, evita julgamentos explícitos. Ele não impõe uma resposta certa ou errada, mas sim convida o espectador a ponderar sobre as nuances de cada escolha. Qual ação é mais virtuosa: a reparação rápida e impulsiva, ou o arrependimento silencioso seguido de uma atitude mais consciente? O que define, afinal, a verdadeira correção de um erro?
A força do filme reside justamente nessa ambiguidade. Kiarostami não busca simplificar a moralidade em um esquema de causa e efeito. Ele reconhece que a vida, assim como as relações humanas, é permeada por incertezas e subjetividades. O que para um observador pode parecer um ato de genuína bondade, para outro pode soar como uma tentativa superficial de aplacar a culpa.
Ao optar por duas soluções, Kiarostami parece evocar o conceito filosófico da contingência. A ideia de que o mundo não é regido por um determinismo implacável, mas sim por uma série de eventos aleatórios e possibilidades em aberto. Nossas escolhas, por menores que sejam, podem ter consequências imprevisíveis e moldar o curso de nossas vidas.
“Duas Soluções para um Problema” é, portanto, um exercício de reflexão sobre a ética do cotidiano. Um filme que, com economia de recursos e sem recorrer a maniqueísmos, consegue provocar debates profundos sobre a natureza humana e a complexidade das relações interpessoais. Um Kiarostami em sua essência, revelando a beleza e a estranheza do mundo através de um olhar atento e desprovido de preconceitos. Um estudo de personagem que permanece relevante e instigante, ecoando em nossa consciência muito tempo depois do término da projeção.




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