A tela se abre não com o mistério de um deserto australiano, mas com a quietude peculiar de um campo de críquete inglês, onde a disputa entre o racional e o inexplicável começa a se manifestar. É nesse cenário aparentemente plácido que um dos jogadores, Robert Graves (não o escritor, mas um personagem inserido na narrativa), relata uma história inquietante a um colega de equipe, um conto que desdobra o núcleo de “O Grito”, de Jerzy Skolimowski. O filme nos transporta para a peculiar experiência de Anthony Crossley, um viajante misterioso que surge na vida de David e Rachel, um casal de artistas que vivem isolados em uma casa costeira, um refúgio de aparente harmonia.
Crossley, interpretado com uma intensidade magnética por Alan Bates, é uma figura enigmática que invade a tranquilidade do casal com suas histórias perturbadoras. Ele afirma ter passado anos com uma tribo aborígene na Austrália, onde aprendeu o “grito territorial”, um som ancestral capaz de matar. Mais do que uma simples ameaça, Crossley impõe sua presença com uma arrogância calculada e uma astúcia psicológica. Ele narra como esse poder não reside apenas na força bruta de um som, mas na capacidade de quebrar a sanidade alheia, de manipular percepções e, em última instância, de desestabilizar a própria fundação da realidade dos que o ouvem.
A partir da intrusão de Crossley, a obra de Skolimowski se aprofunda em uma análise sobre a dinâmica do poder e a vulnerabilidade da mente humana. O casal, David, um músico experimental, e Rachel, uma costureira, são arrastados para um jogo psicológico perverso. A atmosfera da casa, antes um santuário criativo, gradualmente se transforma em um palco para o terror mental, com o som — ou a ausência dele, ou a expectativa dele — tornando-se uma ferramenta de dominação. O filme explora como a narrativa de Crossley, suas alegações fantásticas e sua postura desafiadora, começa a erodir a realidade subjetiva de David e Rachel, forçando-os a confrontar a possibilidade de que o impensável pode ser real.
Skolimowski, com sua direção precisa e atmosférica, mergulha o espectador em uma experiência sensorial que vai além do convencional. A paisagem costeira, com suas dunas e seu mar incessante, atua como um pano de fundo para a instabilidade crescente. O desenho de som é particularmente notável, transformando ruídos cotidianos em presságios e o silêncio em uma ameaça palpável. O poder de Crossley se manifesta menos como magia e mais como uma força psíquica que subverte as convenções da lógica, ilustrando como a crença e a sugestão podem ter um impacto devastador na percepção individual e nas relações interpessoais. O filme evita categorizações fáceis de horror sobrenatural, optando por um terror mais visceral e psicológico que se instala na mente.
A história, baseada em um conto de Robert Graves, é uma meditação fascinante sobre a colonização da mente e a fragilidade da civilidade diante de forças primitivas ou, pelo menos, de crenças primitivas. A ambiguidade persiste: o grito é genuinamente letal ou sua força reside inteiramente na psicologia daqueles que acreditam nele? Skolimowski inteligentemente não entrega uma resposta definitiva, deixando a inquietude pairar. O Grito é um estudo de caso sobre a perturbação da ordem estabelecida por uma figura carismática e destrutiva, um filme que persiste na memória com suas imagens e sons perturbadores, provocando uma reflexão duradoura sobre os limites do controle e da sanidade.




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