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Filme: "The Chorus" (1982), Abbas Kiarostami

Filme: “The Chorus” (1982), Abbas Kiarostami

No filme The Chorus, um homem idoso se isola do ruído urbano desligando seu aparelho auditivo. A conexão com sua neta só é restabelecida quando ela organiza um coro de crianças para chamá-lo.


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Em meio ao ruído incessante das ruas de Rasht, um homem idoso encontra uma forma peculiar de paz. O seu aparelho auditivo, um pequeno dispositivo que o conecta ao mundo, funciona também como um portão que ele pode fechar à vontade. Desligando-o, ele se isola em uma quietude fabricada, um santuário pessoal contra a cacofonia da vida urbana que se desenrola do lado de fora de sua janela. Essa é a premissa de ‘The Chorus’ (Hamsarayan), o curta-metragem de Abbas Kiarostami de 1982, uma obra que articula com simplicidade uma complexa dinâmica sobre comunicação, isolamento e a força da voz coletiva.

A rotina de silêncio do protagonista é interrompida diariamente por um evento singelo: o retorno de sua neta da escola. Incapaz de ouvir seus chamados da rua, ele permanece alheio, trancado em seu apartamento e em sua própria percepção limitada do mundo. O que se segue não é um conflito de vontades, mas um engenhoso exercício de comunicação. A menina, percebendo a barreira, não desiste. Em vez disso, ela organiza seus colegas de escola. Juntos, eles se posicionam do lado de fora e começam a chamar pelo avô em uníssono, formando um coro improvisado cuja potência sonora é projetada para atravessar as paredes e o silêncio deliberado do homem.

A direção de Kiarostami é notavelmente precisa ao explorar a dualidade do som. O ruído do tráfego e da cidade é apresentado como uma agressão, uma poluição sensorial que justifica a busca do protagonista pelo isolamento. No entanto, o som também é a ferramenta para a sua reconexão. O coro de crianças não é apenas barulho; é uma mensagem, uma vocalização com propósito e direção. O filme opera em uma lógica sonora clara: o ruído caótico aliena, enquanto a voz humana organizada e intencional conecta. Kiarostami filma a cena com uma distância observacional, colocando o espectador na posição de testemunha tanto da frustração das crianças quanto da serenidade alheia do avô.

Em sua essência, ‘The Chorus’ pode ser visto como um estudo fenomenológico conciso, explorando como a realidade de um indivíduo é constituída pela sua própria percepção sensorial. O mundo do avô não é o mesmo mundo da sua neta, não por uma questão de distância física, mas pela escolha consciente de modular sua experiência auditiva. Sua realidade é maleável, controlada por um interruptor. A intervenção do coro de crianças representa a intrusão do mundo exterior em sua consciência, uma força social que se impõe sobre uma decisão individual, demonstrando que o isolamento completo é, talvez, uma impossibilidade enquanto se faz parte de uma comunidade.

O curta não oferece julgamentos. A decisão do homem de se desligar do barulho é compreensível, quase lógica. A persistência das crianças é igualmente natural, impulsionada pelo afeto e pela necessidade. O que a obra de Abbas Kiarostami realiza com maestria é destilar essa interação em seus componentes mais fundamentais. É um filme sobre a mecânica do ouvir e do ser ouvido, sobre como uma pequena ação individual reverbera em uma reação coletiva e sobre como a conexão humana, por vezes, precisa encontrar uma frequência específica para se restabelecer. Sem grandes gestos, ‘Hamsarayan’ constrói uma narrativa poderosa sobre as barreiras que criamos e as pontes sonoras que outros podem construir para nos alcançar.


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