Lav Diaz nos leva, mais uma vez, à imensidão do arquipélago filipino em ‘Century of Birthing – Part Four’, um mergulho nas entranhas da alma de Hermes Papauran, um artista em crise. Longe da metrópole Manila, Hermes busca refúgio nas paisagens bucólicas da província, dividido entre a criação de uma obra ambiciosa e a gestão de uma profunda crise existencial. A dualidade entre o concreto do trabalho artístico e o abstrato do seu sofrimento interno permeia cada cena, com a câmera de Diaz capturando a lentidão do tempo e a beleza melancólica do ambiente.
A narrativa se desenvolve em ritmo contemplativo, acompanhando Hermes em seus rituais cotidianos. A pesca, a interação com os habitantes locais e, principalmente, a intensa reflexão sobre a sua arte e o seu propósito na vida constroem um retrato complexo e multifacetado do personagem. As longas tomadas, marca registrada de Diaz, permitem que o espectador se conecte com o ritmo da vida rural e compartilhe a introspecção de Hermes, imerso em um existencialismo agrário. O filme não oferece soluções fáceis, mas propõe uma jornada de autodescoberta, onde a arte se torna um refúgio e uma forma de expressão.
A fotografia, em preto e branco, acentua a atmosfera melancólica e atemporal, transportando o espectador para um universo distante dos padrões cinematográficos convencionais. A ausência de uma trama linear e a priorização da experiência sensorial exigem uma imersão total, recompensada pela profundidade e beleza da obra. ‘Century of Birthing – Part Four’ é um filme sobre a busca por sentido, a relação entre o artista e a sua criação, e a capacidade de encontrar beleza e esperança em meio à adversidade. Uma obra que desafia a pressa do mundo moderno e nos convida a contemplar a complexidade da existência humana. O filme é um estudo sobre a busca do indivíduo por um éthos, por uma forma de ser e agir no mundo que esteja em consonância com seus valores mais profundos.




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