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A confiança se constrói e se quebra ao longo de um dia em “A Matter of Trust”

Obra de Annette K. Olesen constrói cinco histórias independentes com ritmo próprio, acompanhando personagens em situações decisivas


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“A Matter of Trust”, de Annette K. Olesen, parte de uma ideia simples: observar vidas que nunca se cruzam, mas que compartilham um mesmo território emocional. A diretora reúne cinco histórias que acontecem na Dinamarca contemporânea e estendem um fio fino entre política, intimidade, medo e desejo de retomar algum senso de direção quando tudo parece instável. Cada segmento funciona de forma autônoma, como se fosse um curta inserido dentro de outro, de forma entrelaçada.

A primeira história apresenta Eva, interpretada por Trine Dyrholm com a segurança que ela sempre entrega. Ela é a médica responsável por acompanhar um grupo deportado rumo ao Afeganistão, entre eles um homem que engole uma navalha que ele escondia debaixo da língua e uma jovem adulta que não vive no país de origem desde a infância. Olesen filma esse trecho com austeridade e ritmo constante, deixando evidente como o trabalho técnico de Eva entra em choque com as implicações éticas que surgem durante o voo. A tensão não é construída por exagero, e sim pela forma como ela observa cada detalhe, percebendo que o cuidado médico e a decisão estatal caminham em direções que dificilmente se conciliam.

Em seguida, o filme se desloca para um ambiente escolar. Emil, um estudante que enfrenta a repercussão de uma foto íntima enviada para a pessoa errada, encontra o dia descarrilhando com rapidez. O constrangimento que se espalha pelos corredores não é apenas um acontecimento cotidiano, e sim o início de uma espécie de peregrinação inesperada. O encontro posterior com o professor Henrik, vivido por Anders Brink Madsen, dá ao filme um dos momentos mais delicados: dois homens que reconhecem no outro uma fração de vulnerabilidade e apoio silencioso. Esse segmento encontra força na atuação de Emil Aron Dorph, que imprime verdade até nos gestos mais contidos.

Já Adam, personagem de Jakob Cedergren, carrega a parte mais divertida da obra. Ele aluga uma casa rural pelo Airbnb para se encontrar com uma colega de trabalho e viver uma relação extraconjugal. O problema é que tudo dá errado, desde a tentativa de impressionar a amante até a presença constante da proprietária, que transforma o adultério em um exercício quase cômico de frustração. Olesen acerta o tom e encontra humor sem exagero, mostrando que até as histórias mais moralmente tortas ganham leveza quando tratadas com atenção ao comportamento humano. É a minha história favorita.

Já o casal formado por Simon e Maja representa a face mais melancólica entre os quadros. Eles vão ao funeral de uma mulher que Maja não conhecia, mas que desperta em Simon uma inquietação que ele tenta esconder. A diretora deixa que o desconforto cresça devagar, como se a própria cerimônia evocasse segredos que não cabem nas palavras. A atuação de Sofie Juul Blinkenberg se destaca pela naturalidade ao expressar suspeita sem criar grandes conflitos, apenas absorvendo gestos, olhares e pequenas reações.

O último segmento acompanha uma mãe e sua filha pequena caminhando por áreas costeiras. A menina tem um olho roxo, e a narrativa adota um tom mais duro, evitando explicações diretas, resta ao espectador apenas especular. A mãe cria pequenos jogos para distrair a criança, mas o deslocamento tem outra camada que se revela aos poucos. É o trecho mais seco e talvez o mais inquietante, justamente por escolher o mínimo de informação possível.

Olesen articula tudo isso com uma serenidade que combina com o cinema escandinavo contemporâneo. O filme não força suspense e tampouco tenta solucionar os dilemas apresentados, ele entrega as cenas com muita autoridade. Cada história fica no ponto exato entre clareza e opacidade, permitindo que o público perceba quando algo está prestes a se romper. A montagem faz cortes diretos, evitando transições elaboradas, e valoriza o fato de que as vidas não se encontram, mas compartilham certa tonalidade emocional. Cada personagem, à sua maneira, responde ao que enfrenta com escolhas que dizem mais do que justificativas possíveis.

Como obra de antologia, “A Matter of Trust” não busca impacto abrupto, longe disso. Trabalha com ritmo calmo, paisagens discretas e conflitos que parecem pequenos, mas que carregam consequências íntimas. Essa escolha estética pode soar leve demais para espectadores pouco atentos que esperam desfechos fechados, porém é justamente essa opção que sustenta a qualidade do filme: ele observa, acompanha e registra o que cada história pode oferecer sem adotar ambições excessivas.

A soma das cinco histórias não resulta em um grande painel simbólico, mas sim em algo mais modesto e honesto: um conjunto de situações que espelha a incerteza contemporânea e como pessoas comuns tentam manter algum senso de direção quando suas rotinas saem do trilho. Pela maturidade narrativa, pelas atuações sólidas e pela habilidade de trabalhar sem atalhos emocionais, é um filme que vale a experiência.


Nota:

Avaliação: 4 de 5.

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