Durante décadas, o movimento gay lutou pelo direito de casar. Quando esse direito finalmente chegou, uma parte do próprio campo progressista passou a olhar com desconfiança para quem decidiu usá-lo. O gay que sonha com aliança, casa e filhos virou, em certos círculos, um traidor discreto da causa. Seria um reprodutor da heteronormatividade, um aliado involuntário do capitalismo, um herdeiro dócil da moral religiosa. A acusação raramente vem acompanhada de uma alternativa concreta, e por isso a pergunta se impõe. Se casar é capitular, o que sobra?
A crítica tem origem respeitável. Em 2002, a historiadora americana Lisa Duggan cunhou o termo homonormatividade, num ensaio intitulado “The New Homonormativity: The Sexual Politics of Neoliberalism”. Para Duggan, parte do movimento gay havia deixado de contestar as instituições dominantes e passado a sustentá-las, em troca de uma cultura gay despolitizada, ancorada na vida doméstica e no consumo. O casamento aparecia no centro dessa crítica. Havia ali uma preocupação legítima, a de que a respeitabilidade conquistada por alguns casais monogâmicos e bem-sucedidos deixasse para trás quem não cabia no figurino, como os pobres, as pessoas trans e os que viviam fora do modelo do casal.
O problema começou quando a análise de um movimento político virou veredito sobre desejos individuais. Um conceito pensado para criticar prioridades de militância passou a ser usado para julgar quem quer simplesmente envelhecer ao lado de alguém. E há nisso um duplo padrão difícil de ignorar. Ninguém acusa um casal heterossexual que financia um apartamento de perpetuar o capitalismo, nem cobra de dois noivos na igreja uma justificativa ideológica para o casamento. Dos gays, porém, exige-se que sejam a vanguarda de uma revolução que mais ninguém está disposto a fazer. A vontade de estabilidade, de pertencer e de ser cuidado é humana, e não deveria precisar de licença política.
Os números mostram que essa vontade existe e cresce. Desde 2013, quando o Conselho Nacional de Justiça proibiu os cartórios brasileiros de recusar casamentos entre pessoas do mesmo sexo, o país vem batendo recordes sucessivos. Segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE, foram cerca de 3,7 mil casamentos naquele primeiro ano e 12.187 em 2024, o maior número da série. São milhares de pessoas que, diante da liberdade de escolher, escolheram exatamente aquilo que parte da teoria trata como armadilha.
O discurso progressista costuma responder que existem muitas possibilidades para além do casamento e dos filhos. Vale perguntar quais, concretamente. As opções oferecidas costumam ser a liberdade afetiva, os relacionamentos abertos, a vida noturna, as viagens, a carreira, a rede de amigos. São escolhas legítimas e, aos trinta anos, podem ser maravilhosas. Quase todas, porém, pressupõem juventude, saúde e dinheiro. Poucas respondem ao que acontece quando o corpo envelhece, a noite perde a graça e a cultura gay, que sempre cultuou a juventude, deixa de enxergar quem passou dos sessenta.
Os dados americanos dão uma ideia do desfecho. A SAGE, organização fundada em Nova York em 1978 para atender idosos LGBT, estima que essa população tem o dobro de chance de morar sozinha e quatro vezes menos chance de ter filhos do que os idosos heterossexuais. Segundo um levantamento da própria entidade, quase um quarto não tem ninguém para chamar numa emergência. Num país em que filhos e cônjuges são os principais cuidadores na velhice, isso significa enfrentar a fragilidade sem rede. O Brasil não tem um retrato equivalente, mas a pergunta vale aqui também. Qual é o fim de quem não constituiu família?
A resposta mais comum é que os amigos podem ser a família. A ideia tem história e merece respeito. A chamada família escolhida nasceu da necessidade, quando pais expulsavam filhos de casa e quando, nos anos da aids, foram os amigos que cuidaram dos doentes que as famílias abandonaram. Essa rede salvou vidas e continua salvando. Ainda assim, convém admitir que ela não ocupa o mesmo lugar.
Os gregos tinham palavras diferentes para essas formas de amor. Chamavam de philia o afeto entre amigos, nascido da afinidade e da escolha, e de storgē o afeto familiar, aquele que liga pais e filhos e que existe antes de qualquer mérito ou afinidade. A amizade é eletiva e por isso pode acabar quando a afinidade se desfaz. O amor familiar não depende de ser escolhido a cada dia, e é justamente essa falta de escolha que o torna resistente. Na prática, a família escolhida dos trinta anos costuma se dissolver aos poucos. Os amigos mudam de cidade, se casam, têm filhos, e a prioridade deles passa a ser a própria família de sangue. A philia é preciosa, mas raramente sobrevive ao teste da velhice sem o apoio da storgē.
Nada disso exige que todos os gays se casem ou tenham filhos. Há quem não queira, e essa recusa deve ser tão respeitada quanto o desejo contrário. O que não faz sentido é tratar uma das escolhas como traição e a outra como emancipação. Uma política que se pretende libertadora precisa admitir o caminho convencional entre as opções legítimas. E precisa construir estruturas reais para quem não o seguir, como moradias para idosos que acolham pessoas LGBT, redes de cuidado e serviços que não dependam de filhos para funcionar. Prometer possibilidades sem oferecê-las é uma forma elegante de abandono.
A liberdade conquistada pelos gays nas últimas décadas incluía o direito de serem diferentes. Incluía também o direito de quererem coisas comuns, como uma casa, um marido, uma criança correndo pelo corredor, alguém que segure a mão no hospital. Chamar esse desejo de submissão é repetir, com outro vocabulário, a velha ideia de que a vida gay deve ser provisória, marginal e solitária. Depois de tanto lutar para sair dessa margem, seria cruel que os gays fossem empurrados de volta para ela em nome da revolução.




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