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“A vida real” caminha em linha reta em direção ao horror

Romance de estreia de Adeline Dieudonné é narrado por protagonista filha de um pai extremamente violento e de uma mãe tão submissa que mais parece uma ameba

“A vida real” caminha em linha reta em direção ao horror

Romance de estreia de Adeline Dieudonné é narrado por protagonista filha de um pai extremamente violento e de uma mãe tão submissa que mais parece uma ameba



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Uma violência está sempre à espreita em “A vida real”, romance de estreia da belga Adeline Dieudonné. A história é contada por uma jovem narradora de onze anos, filha de um pai caçador-predador extremamente violento e de uma mãe submissa, que é chamada pela própria narradora como “uma ameba”. Em seu dia a dia, a protagonista passa o tempo brincando entre carcaças de carros velhos, junto de seu irmão mais novo, único familiar que ela ama, para fugir da realidade que existe dentro da sua casa.

Não bastasse o duro cotidiano desprovido de qualquer afeto, um terrível acidente marca e muda o rumo da vida dos dois irmãos. Ambos terão que lidar com a contingência, com o trauma e com um luto não elaborado que irá acompanhá-los durante toda a história.

Adeline Dieudonné. Foto divulgação.

O livro traz uma sensação de angústia e coloca o leitor em um estado de alerta, sempre esperando que o pior irá acontecer. A escalada de violência por parte do pai e a total submissão da mãe colocam os dois filhos em uma posição de solidão, quase de órfãos, onde cada um precisa defender a si mesmo, como presas correndo na floresta tentando fugir de seus predadores.

“A vida real” mostra os impactos de se crescer em um ambiente de violência doméstica e faz isso com enorme verossimilhança. A protagonista se vê encurralada tentando fugir de um embate com o pai, salvar o irmão e acordar a sua mãe ameba. Ao mesmo tempo, precisa lidar com suas vontades intelectuais, as mudanças no seu corpo e sua sexualidade aflorando na puberdade.

Adeline Dieudonné acerta em muitos pontos em seu romance. Sua escrita é fluida, envolvente e não soa forçada ou caricata, nem faz parecer que o livro é um ensaio, apenas querendo conscientizar sobre violência doméstica. Porém, o livro possui pontos que deixam a desejar, como a não localização temporal de onde a protagonista está narrando. Não fica claro se a protagonista está narrando do futuro, já adulta, pois ela mantém ideias de crianças em sua fala; ao mesmo tempo, se levarmos em consideração que ela narra pouco depois dos reais acontecimentos, parece estarmos diante de uma criança com subjetividade excepcional, o que é pouco provável. A narradora mistura linguagem técnica e racional com uma imaginação infantil.

Apesar de alguns equívocos e saídas não tão criativas, com “A vida real” Adeline Dieudonné estreia em boa forma sabendo fazer literatura com assuntos que poderiam flertar com o didatismo.


“A vida real”, Adeline Dieudonné

Editora Nós

Avaliação: 4 de 5.

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