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Escrita radical comanda o ritmo neurótico de “Morra, Amor”

Ariana Harwicz transforma a maternidade em um território de risco e reinventa o romance doméstico como um campo de tensão quase selvagem

Escrita radical comanda o ritmo neurótico de “Morra, Amor”

Ariana Harwicz transforma a maternidade em um território de risco e reinventa o romance doméstico como um campo de tensão quase selvagem



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Ao escrever “Morra, Amor”, Ariana Harwicz vivia no interior da França com o marido e o primeiro filho. Esse dado biográfico, sempre mencionado em entrevistas, cria uma moldura curiosa ao redor do romance, mas não deve ser lido como um reflexo direto do que está no livro. A narradora é uma invenção literária, embora carregue uma sensação de deslocamento que ecoa, à distância, as turbulências do exílio. Harwicz costuma dizer que, no início, sequer sabia que estava produzindo um romance, e talvez essa falta de intenção formal explique a força instintiva do texto. A narrativa avança com uma urgência primária, como se a voz que a conduz tivesse surgido antes mesmo de qualquer estrutura.

Logo no começo, a protagonista pondera sobre a compra de um bolo para comemorar os seis meses do filho e, de maneira abrupta, deixa irromper uma lembrança da concepção: “cada vez que olho para ele, me lembro do meu marido atrás de mim, prestes a ejacular em minhas costas, mas de repente me virando e gozando dentro de mim. Se isso não tivesse acontecido, se eu tivesse fechado as pernas, se tivesse segurado seu membro, não precisaria ir à padaria para comprar um bolo de creme ou chocolate e velas, para celebrar meio ano.” A frase, tão direta que quase fere, estabelece o tom do livro: uma linguagem que observa a vida doméstica sem proteção e sem sentimentalismo.

Ariana Harwicz. Foto: Divulgação.

O marido é uma presença remota, quase abstrata. Suas vigílias noturnas, sempre voltadas para o céu, revelam alguém que prefere olhar para longe enquanto a mulher mergulha em um território íntimo e movediço, onde a neurose e a violência disputam espaço com um desejo de fuga. A distância entre o casal é também uma diferença de orientação: ele busca constelações, ela tenta não afundar. É nessa fissura que se insere a floresta, lugar que a narradora visita com frequência. No entanto, não é evidente se esse cenário existe no mundo físico ou se funciona apenas como uma metáfora para a descida aos próprios instintos. A floresta, real ou não, se torna um espaço onde a personagem pode se dissolver um pouco, longe das demandas que a cercam.

A ansiedade pós-parto percorre o romance como uma sombra elástica. A narradora revive a memória do parto com uma inquietação que nunca se resolve. Ela escuta choros imaginários, sonha com o filho, precisa confirmar repetidamente se ele está respirando. O cuidado vira exaustão, e a exaustão vira alucinação emocional. Dentro dessa pressão, o corpo encontra caminhos tortuosos para sentir. A frustração sexual com o marido cresce até se transformar em obsessão por um vizinho, que ela observa com a intensidade de quem tenta reencontrar um pedaço esquecido de si. Em certo momento, reconhece: “Penso nele e sinto desejo.” A narrativa não esclarece se esse desejo se realiza ou se permanece apenas como uma fantasia que a personagem sustenta para continuar respirando.

Os animais ocupam um espaço simbólico importante no livro. A narradora frequentemente se compara a criaturas selvagens, e o romance está pontuado por aparições que testam os limites da racionalidade. Um dos episódios mais marcantes ocorre quando o carro do casal colide com um veado. O impacto, breve, expõe a camada de violência que a protagonista tenta esconder de si mesma. O cachorro, ferido no acidente, intensifica essa tonalidade. Incapaz de lidar com a dor do animal, ela pede ao marido que o mate. A cena é curta, mas revela uma fratura profunda entre instinto e moralidade.

“Morra, Amor” é uma investigação feroz da solidão e da fúria que podem acompanhar a maternidade. O romance observa os relacionamentos a partir de seus pontos de ruptura, sem nostalgia e sem idealização. O casamento da narradora é ao mesmo tempo íntimo e distante, frágil e rotineiro, e contrasta com o dos sogros, que parecem habitar um modelo mais estável e conformado. A escrita de Harwicz captura essa instabilidade em frases que avançam com um ritmo convulsivo, como se cada parágrafo fosse escrito à beira de um descontrole.

Harwicz descreve o romance como realista, mas afirma que o elemento fantástico reside na linguagem. Essa definição explica parte do magnetismo do livro. Há algo de inquietante na forma como o enredo se dobra sobre o desejo, o medo e o desamparo sem jamais tentar organizá-los. A leitura produz uma sensação de risco constante, como se acompanhar a narradora fosse entrar num estado em que tudo pode se romper. “Morra, Amor” é narrado por uma voz que insiste, que vibra, que morde. E é essa insistência que transforma o romance numa experiência tão visceral quanto inescapável.


“Morra, Amor”, Ariana Harwicz

Editora Instante

Avaliação: 3 de 5.

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