Vivemos tempos em que sentir ciúmes se tornou pecado. É como se um manual de conduta moderno nos obrigasse a exorcizar qualquer sombra de possessividade, rotulando-a como um resquício patriarcal, um produto da opressão, do machismo e, claro, da nossa terrível baixa autoestima. Parece que, para alguns, admitir que sentimos ciúmes é o mesmo que confessar nosso envolvimento em uma conspiração contra o progresso humano.
Nesse cenário, me sinto livre em discordar. Sentir ciúmes é tão natural quanto sentir fome ou sede. Não, não estou defendendo ataques de fúria possessiva ou um retorno aos tempos medievais, mas simplesmente reconhecendo que somos seres humanos, imperfeitos por natureza. O ciúme é uma emoção visceral, tão intrínseca quanto o desejo de uma boa refeição.
A ambivalência de um relacionamento é que a pessoa que pela qual você é apaixonado é justamente a pessoa que te atormenta, cujo abandono seria como uma punição insuportável.
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Sinto que é refrescante admitir que não sou uma pessoa “superior” ou “bem resolvida”. Abraço minha humanidade e rejeito a ideia de que precisamos nos tornar seres tão elevados que as emoções “inferiores” se tornem uma espécie de mito distante. Eu não aspiro à perfeição, e tampouco acredito que a ausência de ciúmes seja um sinal de maturidade emocional.
Os arautos do bem-resolvido podem alegar que o ciúmes é uma ferramenta de controle, uma manifestação do patriarcado insidioso. Entretanto, será que não somos todos, em certo grau, cúmplices e vítimas dessa dança emocional? Afinal, negar o ciúmes seria como negar a própria essência da condição humana.
Não me proponho a ser um guru da autossuficiência emocional, pois, francamente, não acredito nessa farsa. Prefiro encarar meus sentimentos, inclusive o ciúmes, de frente, sem a pretensão de ser mais evoluído do que aqueles que ousam experimentar as emoções que a sociedade moderna condena.
Rejeitar a ideia da autossuficiência emocional não significa abraçar a toxicidade do ciúmes desenfreado. Reconhecer nossa humanidade é aceitar que somos suscetíveis a uma gama de emoções, mas também implica a responsabilidade de gerenciá-las de maneira saudável. O ciúmes, como qualquer emoção, merece ser compreendido e canalizado para promover relacionamentos mais genuínos, em vez de servir como arma de manipulação. Enquanto alguns negam suas sombras, prefiro enfrentá-las com coragem, aspirando a uma autenticidade que transcende os rótulos de “superior” ou “bem resolvido”.
Foto de capa: Pedro Pinho




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