Vamos começar pelo nome, que é sempre composto por três partes: primeiro, o nome de batismo, depois o apelido carinhoso e, por fim, o sobrenome do objeto de sua obsessão. Por exemplo, Joãozinho, o possessivo, Sousa. Esse ser magnífico está sempre à espreita, atento a qualquer sinal, por menor que seja, de que alguém ousou olhar para sua amada – aquela que ele insiste em chamar de “minha mulher”.
Sim, ele não admite que a amada tenha uma identidade própria. Para ele, ela é simplesmente um apêndice de seu ego fragilizado, alguém que existe para preencher as lacunas de sua autoestima. Ele se considera o guardião da virtude dela, o defensor de sua honra, o vingador das olhadelas alheias. Qualquer sinal de interesse no universo feminino, um elogio casual, um like numa foto no Instagram, ou um simples “Oi” de um colega de trabalho, é imediatamente interpretado como uma ameaça iminente.
Ah, o ciúmes. Para os medíocres, ele é um tempero para relação, o combustível que mantém a chama acesa. Graças a ele, temos conversas acaloradas, dramas dignos de novela das nove, e noites de insônia. O cioso compulsivo é o diretor e ator principal de sua própria novela, e ele não mede esforços para manter seu papel em evidência. Ele é capaz de fazer a famosa “DR” (discutir a relação) sobre qualquer coisa, desde o jantar a dois na casa dos sogros até a escolha do sabor do sorvete na sorveteria da esquina.
Claro, não podemos esquecer das famosas investigações. O cioso compulsivo é um verdadeiro Sherlock Holmes, sempre à procura de pistas que comprovem suas teorias mirabolantes. Ele vasculha o celular, examina as redes sociais, lê as mensagens antigas, e até mesmo segue o amado objeto de sua obsessão a uma distância segura. E quando, finalmente, encontra algo que possa ser interpretado como uma traição, ele se sente o próprio detetive Hercule Poirot desmascarando o assassino na sala de jantar.
Como não amar o cioso compulsivo? Ele é o exemplo perfeito de que o amor pode ser tão intenso que se transforma em paranoia, de que a insegurança pode ser tão profunda que se torna uma forma de carinho. Ele faz lembrar que o ciúmes não é apenas um sentimento, mas uma forma de arte, uma paixão avassaladora que nos mantém vivos.
Vamos aplaudir de pé o cioso compulsivo, o herói de sua própria novela, o guardião da virtude de sua amada, o detetive que nunca descansa. E que ele continue proporcionando entretenimento, emoção e muitas risadas, porque, afinal, a vida sem um toque de drama não teria a mesma graça.
Ilustração por Mau Lencinas









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