Já em um primeiro momento, “Testo Junkie” salta aos olhos: a obra é, além de uma crítica cultural contra a biopolítica na era que o filósofo Paul B. Preciado chamou de farmacopornográfica, um relato da experiência que o próprio autor teve utilizando o medicamento testogel. Nascido Beatriz Preciado, o filósofo decide utilizar por conta própria a testosterona, se recusando a passar por um médico e dar a ele o poder de decidir sobre o seu corpo.
A partir da sua própria experiência com o gel de testosterona, Preciado faz uma análise corajosa e penetrante do seu já conhecido conceito de indústria farmacopornográfica e das construções sociais de gênero. Ao longo de suas páginas, o autor desmonta os mitos sobre controle corporal e identidade, expondo a ilusão de liberdade em uma sociedade que nos força a nos encaixarmos em categorias predefinidas, utilizando como parâmetro de tomada de decisão a funcionalidade dos nossos genitais biológicos.
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No entanto, “Testo Junkie” vai além de uma mera crítica social com um estilo de escrita acadêmica; é também uma reflexão profunda sobre a natureza da subjetividade humana, onde Preciado tem a coragem e a generosidade de se expor. O filósofo entrelaça sua análise teórica com relatos íntimos de suas interações com sua amante, VD, e suas reflexões sobre a perda de um amigo próximo, GD. Esses momentos de vulnerabilidade humana servem como contraponto poderoso às seções mais densas de teoria, criando uma jornada emocional e intelectualmente envolvente.
Além disso, “Testo Junkie” é uma obra que desafia as convenções literárias, fundindo diferentes formas de expressão artística em um único texto. Os desenhos do autor e as imagens retiradas de revistas e panfletos médicos complementam sua escrita, criando uma experiência sensorial e visualmente estimulante: hora o livro se apresenta como um ensaio, hora como um conto.
No entanto, é importante ressaltar que o livro não é uma leitura fácil. Repleto de referências teóricas complexas e conceitos filosóficos densos, o texto exige um compromisso intelectual por parte do leitor. Mas aqueles que se aventuram por suas páginas são recompensados com uma compreensão mais profunda não apenas das questões de gênero e identidade, mas também da própria condição humana.
“Testo Junkie” é uma obra que desafia, provoca e inspira. É uma escrita como um touro que avança em cima do leitor, lembrando a ele de que o conhecimento verdadeiro não vem da conformidade, mas sim da coragem de questionar, explorar e desafiar as fronteiras do que é conhecido e aceito.
“Testo Junkie”, Paul B. Preciado
Editora Zahar





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