Belo Horizonte nunca foi só montanha e pão de queijo. E, agora, quem ainda acha isso não entendeu nada. BH é, definitivamente, o epicentro da cena Ballroom na América Latina, um título que já está gravado no DNA cultural da cidade. O que começou como um nicho underground nas quebradas da capital mineira virou um movimento de afirmação de grandes proporções. É uma cena que se recusa a ser silenciada, ocupando os espaços e redesenhando a estética da periferia, dos corpos e das identidades. Se BH já teve um dia aquele ar de cidade conservadora, o Vogue está aqui para revirar isso de cabeça para baixo.
Tudo começa com a festa Dengue, em 2013. Pioneira, icônica e, agora, finada – mas como todo grande marco cultural, vive em quem a presenciou. Era mais que uma festa. A Dengue foi o batismo de fogo para muitos LGBTQIA+ que nunca tinham encontrado um lugar para existirem em total liberdade. A Dengue era onde subjetividades marginalizadas não só se expressavam, mas dominavam o espaço com uma força crua, visceral. Foi na própria festa Dengue que eu mesmo tive o primeiro contato presencialmente com o Vogue. A festa Dengue pavimentou o terreno para tudo que veio depois.
E é desse espírito que floresceu o Lipstick, um coletivo de pesquisa, performance e produção que foi impulsionado pela Dengue. Mais que um trio, o Lipstick tomou frente e liderou o Vogue em BH como uma mistura de resistência política e estética afiada. O Trio Lipstick destila uma performance que vai muito além de passos de dança — é uma aula de transgressão que coloca em evidência a negritude, a feminilidade, a não-binariedade, tudo que o mainstream ainda tenta ignorar.
O Lipstick também idealizou o BH Vogue Fever, o maior evento de Vogue na América Latina. E não é só pelo tamanho. O BH Vogue Fever foi gigante em presença, em força, em representatividade. Quando você vê uma batalha no BH Vogue Fever, não está só assistindo a uma competição; está presenciando uma guerra simbólica contra anos de opressão, apagamento e marginalização. O glamour, a técnica e a ferocidade de cada apresentação é um grito contra tudo e todos que tentaram silenciar esses corpos. O Vogue em BH ferveu e o BH Vogue Fever é o ponto de ebulição.
E no meio disso tudo, as Kiki Houses estão emergindo cada vez mais, como uma rede de apoio, família escolhida e espaço de criação. As kiki houses são a versão mais intimista e acolhedora do ballroom, onde as novas gerações se encontram, aprendem, criam e desenvolvem seus estilos. Essas casas, além de serem um berço para novos talentos, são também um refúgio para quem precisa se encontrar. Cada kiki house é uma célula de resistência, um espaço de afeto, mas também de disciplina. Se o Vogue é sobre performar a excelência e a superação, as kiki houses são o laboratório onde essa alquimia acontece.
Belo Horizonte é, hoje, um lugar onde a cultura ballroom não só floresce, mas se multiplica. A cena não para de crescer, e essas kiki houses são o reflexo disso. Elas mostram que o Vogue, em BH, vai muito além de uma estética copiada do cenário de Nova York. Aqui, o Vogue é reelaborado com as nuances da vida mineira, das vivências de pessoas negras, periféricas e LGBTQIA+, que encontram na pista de dança um espaço para se reconectar com suas raízes e desafiar o status quo. BH é a capital do Vogue na América Latina não só porque concentra os maiores eventos, mas porque vive e respira o ballroom como uma expressão legítima e necessária.




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