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Tragicômico, “Dentes” é o mais fraco entre os livros de Domenico Starnone

Obra retrata a crise de identidade de um homem que, após perder dentes, enfrenta uma desintegração emocional

Tragicômico, “Dentes” é o mais fraco entre os livros de Domenico Starnone

Obra retrata a crise de identidade de um homem que, após perder dentes, enfrenta uma desintegração emocional



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Em “Dentes”, Domenico Starnone explora o declínio de um homem contemporâneo que, de forma cômica e trágica, vê sua vida se despedaçar com a perda de seus dentes incisivos, uma perda que é também a da própria identidade. A premissa é direta: após uma discussão familiar, um objeto lançado o atinge na boca, levando embora não apenas dois dentes, mas também parte de sua dignidade. Essa fissura física é um gatilho que desencadeia uma crise psicológica e existencial. A partir daí, o protagonista se perde em uma jornada pessoal em busca de recuperação, visitando consultórios dentários em uma série de episódios angustiantes e por vezes absurdos. Cada dentista examina sua boca e revela novas falhas, oferecendo diagnósticos que, longe de trazer alívio, intensificam o sofrimento. Esse cenário deixa o personagem em um estado de alerta constante, movido por um misto de medo e impotência.

A narração revela o protagonista como alguém desgastado pelas pressões de um mundo que ele não compreende mais. Starnone cria, assim, uma figura arquetípica do homem moderno em crise: um homem intelectualizado, seguro de sua própria racionalidade, mas que, diante de um infortúnio aparentemente banal, vê-se desorientado e sem chão. Os dentes, ao longo da narrativa, transformam-se em símbolos da masculinidade e do ego. Eles representam a capacidade de morder, de se defender e, ao serem destruídos, carregam consigo a autoimagem do protagonista, revelando um “eu” fragilizado.

As recordações emergem como um fluxo de memórias dolorosas, desvelando um passado marcado por conflitos pessoais e inseguranças. A arcada dentária se torna metáfora de um passado que o protagonista preferia manter oculto, mas que, agora, lateja como uma ferida exposta. Em sua escrita, Starnone combina um tom irônico e tragicômico, alternando entre a seriedade das reflexões e as imagens um tanto infantis que a narrativa evoca. Esse contraste confere ao texto uma textura única, que provoca um desconforto deliberado no leitor, refletindo a falta de controle do protagonista sobre a própria vida.

Embora o livro apresente um humor ácido e passagens visivelmente cômicas, há também uma sensação de repetição. As onomatopeias e as descrições detalhadas das visitas ao dentista, por exemplo, conferem à obra um ritmo cíclico, que lembra a tentativa fútil de escapar de uma dor persistente. Essas repetições — talvez intencionais — aumentam a carga psicológica do protagonista, criando uma leitura que oscila entre o cômico e o desconcertante.

A dedicatória “Para Anita” adiciona uma camada de mistério à obra. Muitos supõem que seja uma referência à esposa de Starnone, Anita Raja, que alguns acreditam ser o nome verdadeiro por trás de Elena Ferrante. A presença dessa dedicatória levanta questionamentos sobre a intenção do autor: seria um agradecimento, ou uma provocação sobre os papéis que homens e mulheres ocupam na vida e na literatura?

Com “Dentes”, Starnone transforma uma banalidade — a perda de dois dentes — em uma reflexão profunda sobre identidade, memória e o desmoronamento das certezas masculinas. A obra, com seu estilo tragicômico, expõe a vulnerabilidade de uma geração de homens que se vê perdida no choque entre o passado e as demandas do presente. Ao fim, resta a impressão de que o protagonista, assim como seus dentes, jamais recuperará por completo a solidez de antes, deixando uma sensação amarga de que ele já não pertence ao mundo que o rodeia.


“Dentes”, Domenico Starnone

Editora Todavia

Avaliação: 3 de 5.

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