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“Meu ano de descanso e relaxamento” é retrato de uma busca ilusória pela tranquilidade

Livro de Ottessa Moshfegh apresenta uma jovem em apatia, buscando fugir da superficialidade e vazio existencial por meio do sono.

“Meu ano de descanso e relaxamento” é retrato de uma busca ilusória pela tranquilidade

Livro de Ottessa Moshfegh apresenta uma jovem em apatia, buscando fugir da superficialidade e vazio existencial por meio do sono.



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Em “Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, Ottessa Moshfegh desenha um retrato brutalmente cínico de uma jovem em Nova York, em 2000, que decide anestesiar sua existência em um longo e radical período de hibernação induzida. Basicamente, a protagonista chega à conclusão de que precisa dormir por um ano inteiro usando remédios psiquiátricos para “dar uma resetada”. A leitura pode ser feita com o objetivo de puro entretenimento, pois o humor de Moshfegh é delicioso, mas caso queira ler de forma mais séria, também encontrará estofo na obra: a narradora, cuja voz irônica permeia o texto, representa uma sociedade saturada de superficialidade, desilusão e tédio, onde nada parece suficiente para preencher um vazio existencial que ecoa em cada canto da narrativa.

Nossa protagonista, uma mulher jovem, alta, magra, loira e bonita – atributos que, em sua própria visão, são apenas adornos para um estado de apatia corrosiva – decide que o único remédio para sua angústia é o sono. Ela é uma personagem que rejeita qualquer traço de profundidade emocional ou conexão genuína. Ela busca seu alívio em uma rotina química que se torna um experimento auto-imposto de abnegação consciente. Esse distanciamento de tudo e todos revela uma face do escapismo moderno, disfarçada em uma suposta busca por descanso.

Moshfegh constrói o romance ao redor do consumo incessante de medicamentos – antidepressivos, ansiolíticos, sedativos – com nomes que a autora habilmente inventa para criar um universo de absurdo farmacológico. A narradora encontra uma psiquiatra que, em vez de questionar sua saúde mental, dispensa prescrições de maneira tão abundante quanto irresponsável, alimentando o desejo obsessivo da personagem de se enterrar no esquecimento. Essa psiquiatra é uma caricatura afiada de uma prática médica sem ética, exacerbando a desordem interna da narradora em vez de confrontá-la.

O ano de descanso e relaxamento é mais do que um experimento de isolamento; ele se torna um reflexo sombrio da sociedade americana no final do século XX, marcada por uma decadência moral que só seria agravada pelos eventos de 11 de setembro. Esse evento, insinuado no clímax da história, oferece uma ironia brutal: enquanto a narradora se afunda no sono narcotizado, alheia ao mundo, o próprio mundo acorda para um novo tipo de pesadelo, que destruirá a ilusão de estabilidade e invulnerabilidade da América. Sinto que nós não temos noção do quão marcante foi o atentado de 11 de setembro para os americanos, que seguem com essa obsessão que, confesso, acho chato.

Ao longo do livro, Ottessa Moshfegh manipula a narrativa para expor temas como a alienação social e a desilusão com a promessa de que a beleza e o sucesso trazem felicidade. A relação da narradora com Reva, sua única amiga, é uma prova contundente disso. Enquanto Reva busca incansavelmente uma imagem ideal de feminilidade e sucesso, seguindo dietas rigorosas e praticando Pilates, a narradora despreza esses esforços, preferindo manter-se em um estado de “escória e meleca”, rejeitando tudo o que Remova acredita ser essencial para uma mulher. Esse contraste entre elas demonstra uma crítica mordaz à cultura da autoimagem e à busca incessante por aprovação e status.

Através de uma linguagem sarcástica e uma narrativa cheia de reviravoltas cômicas e perturbadoras, “Meu Ano de Descanso e Relaxamento” expõe um conto de desilusão. A protagonista não quer apenas dormir, quer escapar da “escravidão do autocuidado”, do mundo vazio e sem compaixão que a cerca, simbolizando a apatia de uma geração que, apesar de possuir todos os confortos materiais, é assolada por um sentimento crescente de insatisfação. Moshfegh constrói, assim, uma obra provocativa e inquietante, que oferece um retrato implacável da era moderna e de uma América pré-11 de setembro adormecida em sua própria ilusão de tranquilidade.


“Meu ano de descanso e relaxamento”, Ottessa Moshfegh

Editora Todavia

Avaliação: 4 de 5.

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