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Mercedes vive no intervalo entre o que foi e o que poderia ser, mas sem a pressa ou o entusiasmo de quem ainda alimenta grandes expectativas. O diário que Sabina Anzuategui constrói em “Uma Mulher Sem Ambição” é um espelho trincado de uma São Paulo que engole seus habitantes, enquanto eles, em movimentos de resistência ou rendição, tentam moldar suas rotinas para caberem na vida que podem pagar. Mercedes, com seus 37 anos, abandonou o conforto superficial de um casamento e de uma carreira que, embora bem-sucedidos aos olhos dos outros, já não encontravam lugar na lógica silenciosa de sua subjetividade. Restou-lhe a kitinete do pai, uma renda mínima e um cotidiano de escolhas tão pragmáticas quanto sufocantes.

O que impressiona na escrita de Sabina é sua recusa em transformar o vazio em espetáculo. Não há clímax, redenção ou grandes epifanias. As pequenas tragédias do dia a dia — como o valor da passagem de ônibus ou o que cabe na lista de compras do mês — são narradas com uma sobriedade que, ao invés de afastar, aproxima o leitor. O incômodo aqui é sutil, mas visceral: acompanhamos uma protagonista que não se debate, mas também não aceita, transitando por uma existência sem a energia de uma luta explícita, mas igualmente distante da resignação total.

O ponto central da narrativa talvez seja a relação de Mercedes com a ideia de sucesso. Numa sociedade que ainda associa a realização feminina à tríade casamento-carreira-casa, a escolha de Mercedes em recusar esse script soa como uma transgressão silenciosa, mas poderosa. O que seria fracasso aos olhos do mundo — deixar uma carreira de roteirista e viver num espaço exíguo — torna-se, para ela, uma maneira de reposicionar as peças do tabuleiro de sua vida. Porém, longe de encontrar sentido ou serenidade, Mercedes se acomoda em um estado intermediário, uma suspensão que é ao mesmo tempo inquietante e confortadora.

O humor ácido que permeia algumas passagens revela a habilidade de Anzuategui em equilibrar o peso das circunstâncias com a leveza de um olhar irônico. As interações de Mercedes com seus jovens alunos de cinema, as conversas triviais em barzinhos e os encontros com personagens tão sem direção quanto ela compõem um retrato de uma geração que parece buscar mais na dúvida do que na certeza. Em muitos momentos, o desconforto do leitor em relação à falta de perspectiva da protagonista é revelador: talvez o que Mercedes rejeite não seja apenas o modelo convencional de sucesso, mas também a ideia de que a vida precise necessariamente de um arco narrativo claro e bem definido.

Há uma melancolia que pontua cada página, mas nunca de forma gratuita. O que Sabina oferece ao leitor é um retrato honesto do ordinário, uma narrativa que não promete respostas fáceis, mas que provoca reflexões incômodas sobre o que consideramos essencial para viver. Quando o livro termina, sem oferecer um desfecho, a sensação não é de frustração, mas de reconhecimento: a vida raramente se encerra de maneira satisfatória, e a ausência de conclusão é, talvez, a única conclusão possível.

“Uma Mulher Sem Ambição” não é um livro para ser consumido com pressa ou superficialidade. Ele exige uma entrega que nem sempre é confortável, mas que, em última instância, recompensa. Sabina Anzuategui captura, com uma sensibilidade rara, as complexidades do cotidiano e os dilemas de uma existência que recusa tanto o conformismo quanto a ambição. Um livro que, ao resistir à lógica da grande narrativa, acaba dizendo mais sobre a vida do que muitos que tentam abarcar seu sentido em atos grandiosos.


“Uma Mulher Sem Ambição”, Sabina Anzuategui

Editora DBA

Avaliação: 4 de 5.

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