Katharina Volckmer, com seu romance de estreia A Consulta, escreve para desafiar. O livro é uma ousadia em si: um monólogo de fluxo de consciência em que uma mulher sem nome, deitada em um consultório médico, despeja diante do Dr. Seligman uma torrente de pensamentos desconexos, absurdos e, frequentemente, desconfortáveis. Essa escolha narrativa – uma fala ininterrupta, sem respostas ou contrapontos – não oferece alívio ao leitor. Pelo contrário, prende-nos em um turbilhão de ideias e emoções que provocam, repelem e, de algum modo, atraem.
A narradora é, antes de tudo, uma voz perturbadora. Ela é franca, grotesca, irônica e, por vezes, brilhantemente lírica. Há algo de profundamente humano em sua necessidade de ser ouvida, mesmo que o conteúdo de sua confissão pareça, à primeira vista, um desfile de provocação gratuita: fantasias envolvendo Adolf Hitler, um caso tóxico com um homem casado, e um fascínio quase obsessivo pelo corpo e suas possibilidades de transformação. Mas, ao avançar pelas páginas, percebe-se que a narrativa não é apenas sobre choque; é sobre a busca desesperada por significado em um mundo fragmentado.
O consultório do Dr. Seligman não é apenas um cenário; é um palco. Ali, em meio a uma consulta de contornos inicialmente ambíguos, a narradora se desnuda – não fisicamente, mas emocionalmente. Suas palavras são incisões que tentam chegar ao cerne de questões que a dilaceram: o peso de sua herança cultural alemã, as limitações de seu corpo, e a confusão de sua identidade de gênero. Há uma coragem crua em sua abordagem; ela não tem medo de olhar para os abismos dentro de si, nem de forçar o leitor a fazer o mesmo.
A prosa de Volckmer transborda tensão e humor. O lirismo das frases, frequentemente entremeado por vulgaridades, cria um ritmo que mantém o leitor cativo, ainda que desconfortável. Não é um desconforto gratuito – é o desconforto de encarar verdades que preferimos ignorar. A narradora é tanto uma vítima quanto uma cúmplice de sua própria alienação. Sua relação com o gênero, por exemplo, é explorada de forma tão crua e absurda que, em certos momentos, beira o cômico, apenas para, logo em seguida, revelar uma profundidade dolorosa.
E então há o silêncio do Dr. Seligman. Ele é um personagem e, ao mesmo tempo, uma tela em branco. Sua mudez força a narradora a preencher o espaço, projetando nele seus medos, desejos e julgamentos. Esse silêncio é o catalisador que transforma a consulta em um confessionário existencial, onde a narradora se confronta com as partes mais sombrias de si mesma.
Volckmer insere comentários afiados sobre cultura e história. A Alemanha do pós-guerra emerge como um fantasma que paira sobre a narradora, influenciando suas percepções de identidade e pertencimento. Ao mesmo tempo, questões contemporâneas, como o debate sobre gênero e a liberdade de ser quem se é, permeiam o texto, conectando o passado traumático ao presente confuso.
Se há uma crítica a ser feita, talvez resida no fato de que A Consulta parece, por vezes, se deleitar no choque em detrimento da profundidade. Algumas ideias são lançadas com intensidade, mas não desenvolvidas com o cuidado que poderiam merecer. Isso, no entanto, não diminui o impacto do livro. Pelo contrário, deixa uma sensação de incompletude que parece deliberada – um reflexo da própria condição humana, sempre em busca, sempre inacabada.
Katharina Volckmer nos oferece um espelho distorcido em A Consulta, onde reconhecemos, ainda que relutantemente, fragmentos de nós mesmos.
“A Consulta”, Katharina Volckmer
Editora Fósforo





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