Há algo profundamente desconfortável em ler Brontez Purnell. Mas talvez seja exatamente essa a magia de Johnny, você me amaria se o meu fosse maior?: um texto que não apenas sacode, mas obriga o leitor a ficar, mesmo quando tudo em você grita para fechar o livro. Purnell entrega um mosaico fragmentado e caótico, como a memória de alguém que já viveu demasiadamente – um homem negro, gay, cuja voz narradora parece tanto ecoar as vivências do autor quanto ampliá-las num gesto performático de autoficção.
A história se desdobra num ritmo desigual, permeada por confissões ácidas e autodepreciativas, saltando de situações cômicas para momentos profundamente trágicos com uma habilidade desconcertante. O protagonista, um artista gay “old school” no Alabama, revela suas histórias como quem despeja uma gaveta cheia de papéis desordenados, expondo pedaços de uma vida vivida na periferia – geográfica, emocional e social. Ele é um homem assombrado por traumas, que se entrega a encontros sexuais fortuitos e muitas vezes perigosos, drogas e relações superficiais que não chegam a tocar o núcleo de sua solidão.
O humor é uma camada estranha no texto, um antídoto amargo que suaviza a crueza de relatos que vão de agressões sistêmicas à autossabotagem explícita. Purnell tem um jeito de escrever que parece ao mesmo tempo íntimo e distante, como se o narrador confessasse segredos num tom casual, apenas para rir deles depois. Não é raro gargalhar de algo e, momentos depois, sentir o peso daquela mesma experiência. O riso, aqui, funciona como uma espécie de válvula de escape, mas também como um lembrete cruel da banalização das tragédias cotidianas que marcam corpos marginalizados.
O livro é visceral em todos os sentidos. As descrições explícitas de sexo, drogas e dor não estão ali como simples provocação; elas servem para expor a violência cotidiana que atravessa o protagonista e as comunidades que ele habita. Há também uma crítica feroz ao racismo, à homofobia, ao patriarcado e aos padrões inatingíveis da cultura gay contemporânea – mas tudo isso vem disfarçado, entre piadas e uma escrita informal que poderia enganar quem busca um manifesto direto. É preciso ler nas entrelinhas, porque Purnell não entrega respostas prontas; ele deixa o leitor desconfortável, confuso e, acima de tudo, reflexivo.
Algo que surpreende no livro é sua habilidade de confrontar tabus sem perder o tom irônico. Purnell não nos poupa de nada: ele escreve sobre a busca deliberada por HIV como quem descreve uma ida ao mercado, e é nesse tom aparentemente despretensioso que ele revela as feridas mais profundas de seu narrador. Esse desconforto não é um acidente; é o cerne da obra. Não há como escapar do impacto que Purnell provoca – ele é brutal, escatológico e, ainda assim, essencial.
Se há algo que torna Johnny, você me amaria se o meu fosse maior? tão singular, é sua recusa em ser categorizado. Não é um livro de memórias, mas também não é apenas ficção. Ele habita um espaço ambíguo, como se o próprio texto lutasse contra definições e rótulos, tal qual seu narrador. É uma leitura que exige do leitor não apenas atenção, mas coragem – coragem para encarar o que há de mais feio e humano, e talvez se reconhecer nisso.
No fim, Purnell entrega uma obra furiosamente original que explora, sem pedir desculpas, as profundezas do desejo, da dor e do isolamento.
“Johnny, você me amaria se o meu fosse maior?”, Brontez Purnell
Editora Planeta





Deixe uma resposta