Em Mentiras que Contamos, Philippe Besson constrói uma obra que transcende a mera narrativa de um primeiro amor. O livro, escrito com a delicadeza de quem esculpe palavras em carne viva, narra a história de Philippe, um jovem francês dos anos 80 que se descobre gay em um ambiente rural hostil, onde a homossexualidade é menos um pecado e mais uma impossibilidade social. A trama se desdobra em três atos temporais — os anos 80, 2009 e 2016 —, revelando não apenas a paixão clandestina entre Philippe e Thomas, mas também as cicatrizes deixadas por uma sociedade que exige a negação do desejo como moeda de sobrevivência.
A força do livro não está apenas na trama, mas na forma como Besson manipula a autoficção para questionar os limites entre verdade e invenção. O narrador, que compartilha o nome do autor, vive uma dualidade: é tanto protagonista quanto espectador de sua própria história. Essa estratégia literária não é um mero artifício estilístico, mas uma provocação filosófica. Ao confundir realidade e ficção, Besson nos força a confrontar uma pergunta incômoda: até que ponto nossas memórias são narrativas que construímos para justificar quem nos tornamos? A obra evoca Sartre ao expor a “má-fé” — a mentira que contamos a nós mesmos para evitar a angústia da liberdade. Philippe, ao reescrever seu passado, pratica um ato de existencialismo involuntário: ele edita sua história para tornar suportável o peso de ter vivido em um mundo que rejeitou sua essência.
O amor entre Philippe e Thomas não é romantizado. É um amor truncado, feito de encontros furtivos e silêncios pactuados. Besson não nos oferece a catarse de um romance proibido; em vez disso, mostra como a repressão social corrói até os gestos mais íntimos. Thomas, figura enigmática e fechada, personifica a homofobia internalizada. Sua recusa em assumir-se — mesmo para si mesmo — não é covardia, mas uma estratégia de sobrevivência em um mundo que não oferece alternativas. Aqui, Foucault surge como um espectro: a sexualidade é um campo de batalha político, onde o poder dita não apenas o que pode ser vivido, mas também o que pode ser sentido.
A estrutura fragmentada do livro, com saltos temporais e breves capítulos, reflete a natureza da memória traumática. O passado não é linear; é um fantasma que assombra o presente com perguntas não respondidas. A cena final, uma carta lacônica que desvela décadas de dor contida, funciona como um soco no estômago. Não pelo que revela, mas pelo que omite. Besson entende que o não dito — as pausas, os espaços entre as palavras — carrega tanto significado quanto as frases escritas.
Há, ainda, uma crítica sutil à noção de “progresso”. Mesmo ao saltar para 2016, Besson não concede alívio. A sociedade pode ter mudado, mas as feridas permanecem. Philippe, agora um escritor reconhecido, ainda carrega a culpa de ter sobrevivido enquanto Thomas sucumbiu às exigências de um mundo que não o aceitava. A tragédia não está na morte, mas na vida que precisou ser negada para se manter viva. Essa é a mentira central do livro: a ideia de que é possível seguir em frente sem pagar o preço do que deixamos para trás.
Mentiras que Contamos é, acima de tudo, um tratado sobre a solidão. Não a solidão física, mas a existencial — aquela que nasce quando somos obrigados a esconder partes de nós mesmos. Besson não escreve para comover; escreve para incomodar. Cada página é um espelho que reflete não apenas a dor de Philippe, mas a de todos que já precisaram escolher entre ser verdadeiros e ser aceitos. Em um mundo que celebra a autenticidade como virtude, o livro nos lembra (sem didatismos) que, para alguns, a mentira ainda é o único caminho possível. E talvez essa seja a maior tragédia de todas: a de que, mesmo mentindo, nunca deixamos de dizer a verdade.
“Mentiras que Contamos”, Philippe Besson
Astral Cultural





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