Há algo de profundamente humano na maneira como The Last Showgirl, de Gia Coppola, mergulha nas fissuras de um mundo que prefere o brilho ao substancial. O filme não é sobre Las Vegas, embora a cidade seja sua moldura; tampouco é sobre dança, ainda que os corpos em movimento sejam sua linguagem. É, antes, um estudo sobre o que significa existir à margem de um palco que nunca foi totalmente seu. Pamela Anderson, como Shelly, encarna essa contradição com uma delicadeza que reverbera além das telas — uma atuação que não redime seu passado de ícone sexual, mas o transforma em matéria-prima para algo mais raro: verdade.
Shelly é uma showgirl veterana do decadente Le Razzle Dazzle, um espetáculo que sobrevive como fóssil de uma Vegas pré-Cirque du Soleil, onde plumas e strass eram sinônimos de luxo, não nostalgia. Seus dias são uma coreografia repetitiva de ensaios, conversas nos bastidores e noites solitárias em frente a The Red Shoes, filme que assiste como um mantra. Quando o fechamento do show é anunciado, Shelly desaba — não por perder um emprego, mas por ver desmoronar a única narrativa que sustentou sua identidade. A chegada de Hannah (Billie Lourd), filha que abandonou para seguir a carreira, funciona como um espelho rachado: nela, Shelly enxerga o preço de suas escolhas, a fragilidade de seu mito.
Coppola constrói o filme como um mosaico de pequenos desastres cotidianos. Não há vilões aqui, apenas personagens presos em ciclos de autossabotagem e resistência. Jamie Lee Curtis, como Annette, rouba cenas não por exagerar, mas por expor, sem pudor, a tragédia cômica de quem virou piada de si mesma. Dave Bautista, como Eddie, o stage manager, traz uma quietude que contrasta com a agonia das mulheres — ele é o observador que compreende, mas não salva. A simplicidade do roteiro de Kate Gersten, longe de ser uma fraqueza, permite que as emoções respirem: a câmera de Coppola captura olhares perdidos, gestos interrompidos, risos que se transformam em lágrimas sem aviso.
Mas é Anderson quem carrega o peso invisível da história. Shelly não é um arquétipo da “diva caída”; ela é alguém que nunca alcançou a grandeza que imaginou, mesmo quando seu rosto estampou brochuras. Sua beleza, agora desbotada, torna-se metáfora para uma indústria que consome corpos e os descarta sem cerimônia. Anderson não interpreta Shelly — ela a habita. Cada movimento hesitante, cada sorriso forçado, ecoa sua própria jornada: a de uma mulher que o mundo reduzira a caricatura, mas que aqui se permite frágil, desengonçada, real.
Há uma cena crucial em que Shelly, após uma audição desastrosa, confronta um diretor que a reduz à sua idade. “Tenho 57 anos e sou linda, seu idiota”, ela diz, menos como afirmação e mais como último suspiro de dignidade. Não é um momento triunfante — é patético, como quase tudo na vida adulta quando as ilusões se esvaem. Coppola não romantiza a derrota; ela a filma com uma crueza que dói, usando lentes desfocadas e luzes difusas para imitar a visão embaçada de quem não quer mais enxergar.
Não sabemos se Shelly encontrará um novo propósito, se reconciliará com Hannah, ou se Annette vencerá o vício em apostas. O filme termina como Vegas começa: com luzes piscando, promessas vazias e a sensação de que, por trás da fachada, todos estamos dançando para plateias imaginárias. Anderson, em silêncio durante os créditos, deixa uma pergunta no ar: quantos de nós conseguiríamos enfrentar o fim do espetáculo com tanta graça?
Coppola não faz um manifesto sobre envelhecimento ou fama — ela tece um requiem discreto para quem ousa amar algo efêmero. E nesse vazio entre o que foi e o que nunca será, Pamela Anderson brilha, não como estrela, mas como farol quebrado: iluminando, mesmo rachado, a escuridão que vem depois.
“The Last Showgirl”, Gia Coppola
Disponível no Stremio




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