Em Bully, obra baseada no assassinato real de Bobby Kent em 1993, a câmera persegue adolescentes como quem vasculha um quarto vazio após um crime. Não há heróis ou vilões, só gestos roubados de um roteiro que nunca existiu. Marty (Brad Renfro) e Bobby (Nick Stahl) são dois lados de uma mesma moeda corroída: o primeiro, submisso até a medula; o segundo, um tirano que usa a amizade como disfarce para o sadismo. A violência entre eles não é espetáculo, mas rotina — como escovar os dentes ou ligar a TV.
O filme se desenrola em uma Flórida de estacionamentos e praias sujas, onde o horizonte é bloqueado por shoppings e placas de “vende-se”. Os diálogos são preenchidos por palavrões, risadas sem graça e planos vagos. Quando Lisa (Rachel Miner), a namorada de Marty, propõe matar Bobby, a decisão surge menos como vingança e mais como um passatempo. O grupo — composto por Ali (Bijou Phillips), Donny (Michael Pitt) e outros jovens que parecem ter saído de um sonho febril — encara o homicídio como um projeto de escola: algo para fazerem juntos, já que não sabem fazer nada sozinhos.
O diretor Larry Clark não economiza na crueza. A cena do assassinato é filmada como um tutorial falho: facas sem fio, golpes desajeitados, sangue que escorre sem dramaticidade. Nada aqui lembra a violência estilizada do cinema; é suja, cansativa, quase burocrática. O que choca não é o ato em si, mas a naturalidade com que os personagens lidam com o fracasso do próprio plano. Após o crime, discutem quem deve limpar o carro e riem de um cachorro que fareja o sangue na estrada. A morte, para eles, é um incidente a ser administrado, não um trauma.
Há uma ironia perversa na forma como Clark constrói esse universo. Os pais desses jovens não são negligentes — estão presentes, mas como figurantes. Bobby tem um pai autoritário que sonha com seu diploma universitário; Marty tem uma mãe que oferece sanduíches enquanto ele planeja um assassinato. São adultos que acreditam em “futuro”, uma palavra que soa como piada no contexto do filme. A verdadeira autoridade pertence aos próprios adolescentes, presos em uma hierarquia onde a crueldade substitui o afeto.
A ambiguidade do diretor, porém, salta aos olhos. Clark denuncia a vacuidade moral desses personagens, mas sua câmera os hipersexualiza com um fascínio que beira a contradição. As cenas de nudez — sempre filmadas com uma luz que acentua a juventude dos corpos — não servem à trama; são interlúdios que revelam mais sobre o voyeurismo do cineasta do que sobre a psique dos jovens. Em uma sequência particularmente perturbadora, Lisa se veste após o sexo enquanto a câmera desliza por suas curvas, como se o filme não conseguisse decidir entre julgar seus personagens e consumi-los.
Mas é justo essa tensão que torna Bully irresistível. O filme não busca chocar por chocar — ele escancara o vazio que o choque tapa. Bobby não é morto por ser um monstro, mas porque sua existência tornou-se inconveniente para um grupo que não sabe lidar com incômodos. O assassinato é um ritual de pertencimento: ao matá-lo, os jovens tentam, pela primeira vez, sentir-se parte de algo maior. O problema é que esse “algo” não existe — só o eco de suas próprias vozes repetindo frases feitas sobre lealdade e justiça.
Bully é um quebra-cabeça onde todas as peças são buracos. O que resta é o retrato de uma geração que não consegue nomear sua própria raiva — e, por isso, a transforma em espetáculo mudo. O filme não é sobre a violência que cometemos, mas sobre a que suportamos em silêncio, até que ela nos defina.
“Bully”, Larry Clark
MUBI




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