Cultivando arte e cultura insurgentes


“Oleg” acompanha a jornada de um homem sem nação

Na fronteira entre a esperança e o abismo, um imigrante descobre que a liberdade é um prato servido apenas aos que têm pátria


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em um continente que se orgulha de suas fronteiras abertas, Oleg, de Juris Kursietis, expõe a ferida purulenta de uma Europa que subsiste na exploração silenciosa dos que não têm voz. O filme é sobre corpos que se movem como peças em um jogo de xadrez cujas regras são escritas em línguas estrangeiras. Oleg, interpretado por Valentin Novopolskij com uma mistura de resignação e ironia ácida, é um açougueiro letão que troca a neve de Riga pelo frio metálico de um matadouro industrial em Ghent. Suas mãos, habituadas a desmembrar carcaças, logo descobrirão que a carne mais vulnerável é a humana.

A narrativa se desdobra como um pesadelo realista: demitido por um erro que não cometeu, Oleg é engolido pela teia de Andrzej (Dawid Ogrodnik), um polonês cujo carisma esconde uma espécie de um psicopatia. Andrzej oferece trabalho, documentos falsos e a promessa de pertencimento, mas seu verdadeiro negócio é a escravidão moderna. Ogrodnik rouba a cena com uma atuação que oscila entre o grotesco e o tragicômico — um vilão que ri enquanto afunda a faca, lembrando que a crueldade mais eficaz é aquela que se disfarça de camaradagem. A relação entre os dois homens é complexa: enquanto Oleg luta para manter um resto de dignidade, Andrzej encarna o capitalismo desregrado, onde até a miséria humana pode ser monetizada.

Kursietis constrói seu filme como um labirinto de becos sujos e cantos escuros, filmado em handheld com uma proximidade que sufoca. A câmera de Bogumil Godfrejow persegue Oleg como um predador, encurralando-o em enquadramentos claustrofóbicos que refletem sua impotência. O formato 1:1, reminiscente de um retrato antigo, acentua a sensação de aprisionamento — não há horizonte para quem não tem pátria. A escolha estética não é mero formalismo: é uma declaração política. Cada tremor da câmera ecoa o desespero de milhões de “cidadãos de lugar nenhum”, como definiu Theresa May em seu delírio anti-imigração.

O filme, porém, evita o didatismo. Entre cenas de violência seca e humilhações sistemáticas, Kursietis injeta humor negro, como na sequência em que Oleg se infiltra em uma festa da elite letã fingindo ser ator — uma sátira mordaz sobre a performatividade da identidade. Ainda assim, a tentativa de entrelaçar o destino de Oleg ao simbolismo religioso (o “Cordeiro de Deus” mencionado na voz over) soa, às vezes, como um peso excessivo em uma narrativa já carregada de urgência. Oleg não precisa ser mártir; sua existência precária já é um sermão sobre os altares do capital.

O que mais impressiona é como o diretor equilibra o micro e o macro. A história de Oleg poderia ser um caso isolado, mas cada detalhe — o gato chamado Brexit, as conversas em pidgin inglês entre poloneses e letões, a solidão de Małgosia (Anna Próchniak), namorada abusada de Andrzej — revela um sistema que transforma seres humanos em mercadoria descartável. A Europa de Kursietis é um organismo que se alimenta da carne dos marginalizados, um ciclo perverso onde até a rebelião é cooptada.

Se há uma falha, está no final, que recua diante de seu próprio pessimismo. A redenção ambígua de Oleg, entremeada com imagens oníricas do lago congelado, parece querer conceder um respiro após tanta asfixia. Mas talvez seja esse o ponto: em um mundo onde até a esperança é um luxo, o ato de seguir respirando já é uma forma de resistência.

Oleg consegue ser bem mais do que um filme sobre imigração; a história é um retrato de uma época em que a humanidade virou moeda de troca. Kursietis coloca o espectador para encarar o abatedouro em que nos tornamos — e questionar quantos Olegs estão, neste exato momento, sendo devorados em nome do progresso.


“Oleg”, Juris Kursietis

Stremio

Avaliação: 5 de 5.

Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading