Alain Guiraudie não faz filmes para espectadores à procura de mapas. Em Staying Vertical, seu projeto mais ambicioso desde Um Estranho no Lago, ele desenha um labirinto onde eros, morte e criação se entrelaçam como raízes de uma árvore ancestral. A história de Léo, um roteirista à deriva interpretado por Damien Bonnard, começa com um plano sequência que poderia ser uma metáfora para o próprio cinema: a estrada rural vista através do para-brisas, um convite hipnótico a seguir em frente, mesmo sem saber o destino. O que parece um simples passeio transforma-se em viagem ao cerne da condição humana, onde a sexualidade não é apenas ato, mas linguagem — uma forma de negociar poder, solidão e até a própria sobrevivência.
Léo é um anti-herói sem grandiosidade. Seus olhos cansados carregam a perplexidade de quem tenta escrever a própria vida enquanto ela escapa entre os dedos. Ao se envolver com Marie (India Hair), uma pastora tão enraizada na terra quanto as ovelhas que protege dos lobos, ele é arrastado para uma realidade que desafia a linearidade: a gravidez instantânea, o parto filmado com crueza documental, o abandono materno que chega sem melodrama. A câmera de Guiraudie não julga, apenas observa. A nudez de Marie, inspirada no quadro A Origem do Mundo de Courbet, não é voyeurismo, mas afirmação de um realismo que desconstrói romantismos. A vida surge em seu aspecto mais visceral — sangue, fluidos, contrações —, e Léo, como o espectador, é obrigado a encarar o milagre grotesco da existência.
O filme, porém, recusa-se a ser um drama sobre paternidade. Cada cena é uma encruzilhada. Enquanto cuida do filho recém-nascido, Léo vagueia entre encontros que borram as fronteiras entre desejo e absurdo: um avô que o assedia com voracidade inesperada, um jovem rebelde que desperta nele uma atração desajeitada, um velho rancoroso (Christian Bouillette, magnético em sua raiva tragicômica) cuja morte se entrelaça a um ato sexual quase ritualístico. Guiraudie trata esses momentos com uma naturalidade que beira o surreal. Não há música para ditar emoções, apenas o silêncio cortante do campo francês e o ronco de discos de rock tocados em volume ensurdecedor — como se o caos interior dos personagens precisasse ecoar na paisagem.
A escolha de situações extremas — um bebê usado como isca para lobos, uma cabana futurista no meio da floresta onde terapias místicas são aplicadas — não é mero culto ao chocante. São alegorias de um mundo onde instinto e razão travam uma guerra sem tréguas. Os lobos, constantemente citados, nunca aparecem até o clímax, mas sua presença paira como ameaça primordial. Eles simbolizam tudo que não pode ser domesticado: o desejo, a violência, a natureza indomável da arte. Léo, em sua jornada, é ao mesmo tempo caçador e presa — persegue inspiração para seu roteiro, mas é perseguido por responsabilidades que não escolheu.
Guiraudie falha, contudo, ao subestimar a paciência do espectador. Seu método fragmentado, que em Um Estranho no Lago gerava tensão, aqui às vezes soa como indecisão. Cenas como a investida de mendigos ao bebê, embora visualmente potentes, parecem desconectadas do todo, como se o diretor priorizasse o impacto momentâneo em detrimento da coerência. Ainda assim, há beleza nessa imperfeição. Staying Vertical não é um quebra-cabeça para ser montado, mas um espelho quebrado: cada fragmento reflete uma faceta diferente do desespero humano.
O título, revelado apenas no final, é uma chave dupla. “Permanecer vertical” é conselho literal para evitar ataques de lobos, mas também metáfora para a luta diária contra o colapso — físico, emocional, criativo. Léo, em sua nudez final diante da matilha, não é herói nem mártir. É um homem que, após tropeçar em todas as armadilhas do desejo e da responsabilidade, descobre que a única forma de seguir em frente é manter-se de pé, ainda que cambaleante. Guiraudie entrega uma experiência que, como a vida, é desconcertante, excessiva e impossível de esquecer.
“Staying Vertical”, Alain Guiraudie
Stremio




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