Em uma vila francesa onde o silêncio é tão espesso quanto a neblina matinal, a chegada de Jérémie (Félix Kysyl) para o funeral de um antigo mentor desenterra mais do que memórias. O jovem padeiro, de modos suaves e olhar evasivo, instala-se na casa da viúva Martine (Catherine Frot), reacendendo suspeitas no filho dela, Vincent (Jean-Baptiste Durand), cujo rancor transborda em golpes e olhares carregados de uma intimidade mal resolvida. Entre copos de vinho e caminhadas pelo bosque, o que parece um drama rural sobre luto e reconciliação transforma-se em uma sinfonia de transgressões: assassinatos mal disfarçados, seduções fracassadas e um padre (Jacques Develay) que coleciona cogumelos e pecados com igual devoção.
Guiraudie não constrói personagens, mas organismos. Jérémie, por exemplo, não é um protagonista, e sim uma força ambígua que perturba o ecossistema da vila. Sua presença desloca hierarquias, expondo fissuras em relações que pareciam estáveis. Vincent, o filho ciumento, não é um antagonista, mas uma vítima de sua própria virilidade frágil; Martine, a viúva, alterna entre a maternidade protetora e uma sensualidade que desafia o luto. Até o bosque, com seus troncos retorcidos e clareiras escondidas, funciona como um personagem mudo — palco de crimes e metáforas, onde cogumelos brotam sobre corpos como flores de um jardim infernal.
A genialidade do filme está em sua recusa em distinguir entre o sagrado e o profano. O padre, figura que deveria encarnar a moralidade, é o primeiro a justificar mentiras em nome de uma “misericórdia” que parece mais interesse carnal que divino. Enquanto a polícia investiga o desaparecimento de Vincent com a eficiência de turistas perdidos, a verdadeira investigação ocorre nas entrelinhas: quem é mais culpado? O assassino que enterra o corpo ou a comunidade que prefere ignorar o fedor da decomposição? Guiraudie brinca com a ideia de que a culpa, como os esporos dos cogumelos, é transportada pelo vento. Todos respiram, todos carregam fragmentos.
A fotografia de Claire Mathon — conhecida por pintar luzes melancólicas em Retrato de uma Jovem em Chamas — aqui opta por tons terrosos e horizontes estreitos. As cenas noturnas são banhadas em sombras azuladas, enquanto os dias parecem sempre cinzentos, como se o sol se recusasse a testemunhar o que acontece ali. A câmera, muitas vezes estática, observa os personagens com a paciência de um caçador: sabe que a presença humana, em sua busca por amor ou redenção, sempre se entrega.
Há uma cena que encapsula o espírito do filme. Após o assassinato, Jérémie arrasta o corpo de Vincent pelo bosque, ofegante, enquanto a câmera acompanha seu esforço sem julgamento. Não há música dramática, apenas o som de folhas secas sendo pisoteadas e a respiração entrecortada. É brutal, quase cômico em sua falta de glamour. Guiraudie parece dizer: o mal não é um monstro, mas um ato cansativo, executado por mãos trêmulas.
Se há uma crítica a ser feita, é que o filme às vezes se perde em seus próprios simbolismos. A relação entre Jérémie e Walter (David Ayala), o amigo solitário de Vincent, poderia ter sido explorada além dos olhares tensos e convites mal articulados. No entanto, até essa lacuna serve ao propósito maior: em Misericórdia, nada é plenamente resolvido porque a vida, como os cogumelos, prospera na ambiguidade.
Ao final, restam perguntas incômodas. O que é mais perigoso: o desejo que corrói ou a moralidade que asfixia? Guiraudie não responde, mas nos deixa com imagens que fermentam na mente. Como a última cena, em que Martine colhe cogumelos no bosque, ignorando — ou aceitando? — o que está sob seus pés. Afinal, em um mundo onde a verdade apodrece rápido, talvez só reste colher o que nasce dela.
“Misericórdia”, Alain Guiraudie
Stremio




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