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A solidão em pixels

Da ilusão de cardápios afetivos à fome que persiste: o que os apps não contam sobre a matemática do “vários” e a solidão do “nenhum”


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Há um ritual contemporâneo que se repete todas as noites: dedos deslizam sobre telas, perfis surgem e desaparecem, rostos são reduzidos a frases de efeito e poses calculadas. Nos aplicativos, a promessa é a mesma — conexão —, mas o que se colhe, muitas vezes, é um catálogo infinito de possibilidades que nunca se materializam. É como entrar em um supermercado 24 horas e sair apenas com um pacote de biscoito vencido. A fome persiste.

Os relacionamentos gays, em particular, carregam uma contradição saborosa: há liberdade para experimentar, mas também uma pressão silenciosa para se encaixar em moldes que nem sempre servem. Os apps, nesse sentido, funcionam como vitrines de um shopping center noturno. Você pode admirar as peças, tocar em algumas, levar outras para casa, mas no dia seguinte tudo parece ter a mesma textura de plástico. A solidão, aqui, não é ausência de corpos, mas de narrativas. Ninguém quer ser personagem de uma história longa; preferem participações especiais.

Há quem diga que a culpa é da tecnologia, mas ela só amplifica o que já existia. Antes dos algoritmos, já havia olhares fugidios em bares, encontros marcados por códigos e a mesma sensação de que, por trás de cada sorriso, havia um manual de instruções não escrito. A diferença é que agora tudo é acelerado: paixões nascem em mensagens de texto e morrem no vácuo azul do online. O problema não é a velocidade, mas a ilusão de que dá para consertar a carência com downloads.

O que intriga é como a solidão se disfarça de movimento. Rolamos a tela como quem pratica um esporte olímpico, acumulamos matches como troféus, mas no fim do dia, a sensação é a de ter comido fast-food emocional — sacia na hora, enjoa depois. Não faltam corpos, faltam perguntas. “O que você procura aqui?” é a interrogação que ninguém responde direito, porque admitir que se quer mais do que um emoji de berinjela é quase uma confissão de fraqueza.

Talvez a verdade seja que, em meio a tantas opções, nos tornamos péssimos jardineiros. Regamos plantas artificiais e reclamamos que não crescem. Cultivamos conversas que duram o tempo de uma bateria de celular e nos surpreendemos quando não viram árvores. A solidão gay, nesse contexto, não é um vazio, mas um excesso mal administrado: tantas vozes que ecoam no mesmo tom, tantas histórias que começam com “oi, tudo bem?” e terminam com um bloqueio.

Não se trata de romantizar o passado ou demonizar o presente. É só observar que, em algum momento, confundimos proximidade com disponibilidade. Estar a um clique de distância não significa estar por perto. E talvez a saída — se é que há uma — seja aprender a fechar alguns apps para abrir outros territórios: aqueles onde o silêncio não precisa ser preenchido com notificações, e um café pode durar mais que três mensagens trocadas entre um like e outro.

Afinal, a solidão não é um bug do sistema, mas um lembrete incômodo: conexão de verdade ainda exige colocar o celular no modo avião e encarar o risco de ser visto — sem filtros, sem bio irônica, sem a garantia de um match.


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