Cultivando arte e cultura insurgentes


O desejo está sempre sob vigília em “Plainclothes”

Carmen Emmi costura um thriller psicológico onde a moralidade policial se dissolve em desejo clandestino


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Retratado na cidade de Syracuse no final dos anos 90, Plainclothes, primeiro longa de Carmen Emmi, mergulha na história de Lucas (Tom Blyth), um policial em conflito com sua própria sexualidade, incumbido de prender homens que fazem pegação em banheiros públicos sob acusações de “indecência”. O que poderia ser um relato histórico ganha urgência contemporânea, expondo como mecanismos de controle social se reinventam, nunca desaparecem.

Lucas é um personagem esculpido em nuances. Sua função na polícia — atrair homens em áreas de cruising — o coloca em rota de colisão consigo mesmo. A morte do pai, a relação sufocante com a mãe (Maria Dizzia) e a atração por Andrew (Russell Tovey), um homem mais velho e casado, formam um triângulo de pressões onde sua própria identidade se dissolve. Emmi constrói a narrativa como um quebra-cabeça temporal, alternando entre momentos de tensão familiar e encontros clandestinos, sugerindo que o passado e o presente coexistem em um mesmo fluxo de culpa.

A escolha estética de filmar em 4:3 não é mera nostalgia. O formato estreito aprisiona Lucas em cada quadro, como se a tela fosse um confessionário claustrofóbico. A câmera, por vezes, assume a perspectiva de câmeras de vigilância ou de gravações caseiras, borrando a linha entre observador e observado. Aqui, o panóptico de Foucault ganha carne: a vigilância não é apenas externa, mas internalizada. Lucas não precisa de grades; sua mente é a cela. Cada olhar trocado no banheiro do shopping, cada gesto calculado, ecoa o pavor de ser descoberto — pelo Estado, pela família, por si mesmo.

Blyth oferece uma atuação visceral, o ator se entrega ao personagem. Seu corpo — alto, esculpido, quase uma estátua grega — torna-se paradoxal: instrumento de trabalho e fonte de angústia. Ele é a isca perfeita não por sua beleza, mas por sua vulnerabilidade palpável. Já Tovey, como Andrew, traz uma melancolia contida. Sua personificação da solidão é tão eficaz que chega a doer: um homem que aprendeu a dividir a vida em compartimentos estanques, onde o desejo é um segredo guardado a sete chaves. A cena no jardim de inverno, único momento de respiro no filme, brilha não pelo erotismo, mas pela delicadeza. É um interlúdio frágil, como se ambos soubessem que aquela luz logo se apagaria.

Emmi, no entanto, não é totalmente benevolente com sua própria criação. A montagem fragmentada, embora eficaz em transmitir a desordem mental de Lucas, às vezes se perde em excessos e confunde muito o espectador. Certos cortes bruscos e inserções de estática parecem mais um exercício de estilo do que uma necessidade narrativa. A sequência do jantar de Ano Novo, por exemplo, poderia ganhar mais força com menos rupturas visuais e mais silêncios. Há, também, uma certa previsibilidade no clímax, que recai em convenções dramáticas em contraste com a originalidade do restante.

Ainda assim, Plainclothes se sobressai pela delicadeza. Lucas não é um herói trágico, tampouco uma vítima passiva. Ele é um produto de seu tempo — um tempo que, o filme sugere, nunca acabou. A repressão não se dissolveu; apenas mudou de roupa. No universo de Emmi, a liberdade é uma promessa quebrada, e o amor, quando existe, é um risco calculado. Resta ao espectador decidir se essa é uma condenação ou um desafio velado — mas, como diria Foucault, até a resistência é moldada pelo poder que a cerca.


“Plainclothes”, Carmen Emmi

Disponível no Stremio

Avaliação: 4 de 5.

Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading